Campanhas combatem boatos sobre vacinação contra sarampo para melhorar a imunização

Com 271 casos confirmados de sarampo dos 1.841 notificados desde março de 2018, Manaus teve decretação de situação de emergência para conter o avanço da epidemia da doença na capital amazonense. Os números divulgados no Informe Epidemiológico da Sala de Situação de Vigilância em Saúde publicado em 3 de julho revelam que o crescimento no número de casos suspeitos aumenta a possibilidade de disseminação da enfermidade para outros Estados, colocando em risco os compromissos para certificação da eliminação da circulação do vírus do sarampo.

Durante todo o mês de agosto, a partir do dia 6, acontecerá em nível nacional a Campanha Nacional Contra a Poliomielite e o sarampo, e dentro da situação de emergência buscará a intensificação da aplicação da vacina para alcançar 95% da população, controlando assim a epidemia. O público-alvo é composto de crianças com no mínimo 6 anos até adultos de 49 anos. Dados da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) estimam que a população nessa faixa etária seja de 724.048 pessoas, mas aproximadamente 40% ainda não foram devidamente imunizadas. O maior número de ocorrências tem sido observado ao longo da rodovia BR-174 (Manaus-Boa Vista), na zona norte de Manaus.

O infectologista e diretor de Assistência Médica da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-DHV), Antônio Magela Tavares, alerta sobre campanhas antivacinas baseadas em suposições e sem embasamento científico. “O sarampo, uma das doenças mais antigas de que se tem ciência mas que já tem vacina, chegou a ser vetada por pais de crianças e jovens por acreditarem que a vacina causava autismo”, exemplifica.

De acordo com Magela, os serviços de epidemiologia do Estado começaram a ficar atentos e iniciar campanhas após as notificações de casos na Venezuela, ano passado. Depois começaram as ocorrências em Roraima, principal ponto de destino dos imigrantes venezuelanos. “Como temos uma ligação direta com Boa Vista, vimos que era questão de tempo chegar aqui, por isso temos hoje o maior número de registros de sarampo na zona Norte da capital, que é por onde se entra em Manaus”, explica.

Mitos

O sarampo, conforme o infectologista, faz parte do grupo de viroses comuns da infância, não exclusivas dela. Juntamente com a crença de que a enfermidade causaria autismo, é um dos mitos que ainda existem, e vários adultos foram internados com a doença. “Ela pode evoluir gravemente em grupos de risco, com populações mais vulneráveis. Isso inclui quem faz quimioterapia, gestantes, idosos e crianças desnutridos, portadores de doenças crônicas e usuários de corticoides”, alerta Magela. Ele acrescenta que a vacina contra o sarampo também contempla a caxumba e a rubéola.

As pessoas podem ter tido sarampo na sua forma mais branda, que felizmente é a maior parte dos casos”, afirma Magela. “Quem já teve sarampo, está imunizado. Como toda epidemia, ela vai passar”, acrescenta. Isso porque, segundo o infectologista, a partir do momento em que 95% da população estiver vacinada, a doença começa a regredir.

As redes sociais tem sido a arma utilizada para tirar dúvidas, compartilhar informações sobre o sarampo e, principalmente, desmentir boatos. “Sempre surgem áudios e vídeos alarmistas, e estamos desmistificando isso para passar informações mais seguras para as pessoas”, explica Magela. “O sarampo é uma das doenças mais antigas, mas que possui vacina. Por que ainda existe? Por causa de campanhas antivacina, que não tem embasamento científico e são baseadas em suposições”, alerta.

Magela conta que, na Inglaterra, um pesquisador publicou em 1998 um artigo no qual associava o autismo à vacina do sarampo. “Houve uma redução drástica na vacinação, o sarampo aumentou, mas o autismo, não. Em 2010, o artigo foi desmentido. Em 12 anos, muita gente deixou de se vacinar, causando explosão da doença em vários países”, lembra. “No Brasil, ainda hoje é assim. São crianças que podem se imunizar entrando em contato com pessoas doentes”.

Antonio Magela Tavares, infectologista da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-DHV), Antônio Magela Tavares: sarampo ainda existe por causa de campanhas antivacina sem embasamento científico

Riscos

O médico da FMT alerta que o sarampo pode causar morte em idosos e crianças, além de causar meningite e encefalite, com grande risco de sequelas psicológicas. “Com toda essa realidade epidemiológica, é mais seguro e inteligente se vacinar. O Brasil hoje é autossuficiente na produção da vacina, feita com todo o rigor de critérios científicos e eficaz. O calendário oficial de vacinas está aí desde 1987, e em torno de umas 20 doenças podem ser prevenidas pela vacinação”, argumenta Magela.

Poliomielite

Até o final do século 20, a poliomielite ainda causou muita preocupação. “A geração que hoje tem 50 a 60 anos se lembra disso. Havia medo muito grande da polio, chamada paralisia infantil por atingir muitas crianças”, lembra Magela.

Atualmente, não há notificações sobre poliomielite, mas isso não elimina os riscos. “Mais de 300 cidades brasileiras estão em situação de risco por terem baixa cobertura vacinal, às vezes abaixo de 50%, por isso essa campanha a partir do dia 6”, justifica o infectologista.

A forma grave da poliomielite compromete o sistema nervoso central e o respiratório, e os estudos para produção de vacinas se intensificaram a partir dos anos 1950. O último caso registrado no Brasil foi em 1990, e após isso a poliomielite foi considerada erradicada no país, o que foi certificado em 1994. “Mas ela ainda existe, o que justifica a vacina. O vírus continua circulando no mundo, e no processo de globalização é fácil ir de um lugar para outro. Daí devemos intensificar a cobertura vacinal”, atesta.

Por que vacinar?

O sarampo é uma doença infecciosa viral alta transmissibilidade, cuja prevenção é feita através da vacina Tríplice Viral que pode ser contraída por pessoas de qualquer idade. Quem a contrai pode evoluir para quadros graves, incluindo meningite, encefalite, pneumonia e morte, principalmente em idosos, crianças desnutridas e menores de um ano de idade. A transmissão da doença ocorre diretamente de pessoa a pessoa, através de gotículas do nariz, boca ou garganta de pessoas infectadas pelo vírus.

A poliomielite é uma doença causada por um vírus que reside no intestino e é eliminado com as fezes, que contamina água e alimentos, culminando no ataque do vírus ao sistema nervoso central, destruindo os neurônios motores da medula, atrofiando as fibras musculares. Com isso, a criança perde força nos membros inferiores, atrofia, também chegando a causar outras dificuldades como insuficiência respiratória, contaminando água e alimentos e podendo infectar outra pessoa. Há o risco da transmissão direta de pessoa para pessoa através de gotículas de saliva, fala, espirro e tosse.

Fotos: Mayana Lopes

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