Estudo mostra impactos de 35 anos da hidrelétrica de Balbina em florestas de igapó da Amazônia

Um estudo liderado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) trouxe uma síntese de mais de 35 anos dos impactos causados pela construção da hidrelétrica de Balbina nas florestas alagáveis de igapó até 125 quilômetros rio abaixo da barragem. O estudo foi publicado recentemente na revista científica Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems, tendo o pesquisador Jochen Schöngart como primeiro de um total de 22 autores, pesquisadores de instituições do Brasil, Alemanha, Holanda e Reino Unido. A publicação traz os detalhes das perturbações encontradas no espaço e no tempo na floresta de igapó, desde o início da construção da barragem em 1983, e um alerta para o que pode acontecer em outros pontos dos rios amazônicos, onde há mais de 400 barragens, operando, planejadas ou em construção.

A alteração mais nociva é o que os pesquisadores estão chamando de “efeito sanduiche”, no qual o “recheio” não é nem de longe saboroso. A pressão sofrida pelas florestas nas porções mais elevadas e mais baixas resulta na perda de habitats e na diversidade de árvores, com severos impactos nas cadeias tróficas, incluindo a alimentação de peixes, além da perda de importantes serviços ecossistêmicos. A pressão das porções baixas resulta dos elevados níveis mínimos de água durante o período de operação da barragem.

“Aproximadamente 12% das florestas de igapó já morreram e outras são ameaçadas se o modo operacional de construção das barragens continuar a alterar o regime hidrológico”, salientou Jochen Schöngart, que possui graduação e doutorado em ciências florestais. Essas árvores são espécies que estavam adaptadas ao regime regular e anual de inundação, como a Eschweilera tenufolia (conhecida como cuieira e macacarecuia), mas que após o barramento do rio Uatumã (150 quilômetros ao norte de Manaus) tiveram que lidar com inundações quase permanentes, acima da capacidade das espécies de tolerar tanto tempo debaixo d’água.

Nas topografias mais altas, as florestas de igapós foram afetadas pela invasão de espécies da terra firme que possivelmente são mais competitivas que as espécies de igapó. Nas topografias médias, houve um forte declínio da diversidade e, com isso, a dominância de algumas espécies arbóreas. Segundo o pesquisador, os distúrbios que causaram o impacto foram gerados durante o enchimento do reservatório (1983-1989) que resultou em condições de extrema seca nos igapós a jusante da barragem.

“Árvores das florestas alagáveis começaram a morrer por causa da falta de água. Possivelmente incêndios também afetaram os igapós neste período em que as condições secas geradas ainda foram potencializadas por eventos o El Niño (1982/1983 e 1986-1988), que diminuem a precipitação e tendem aumentar a temperatura e a umidade relativa do ar nesta região”, explicou.

A hidrelétrica de Balbina, no município de Presidente Figueiredo, é considerada um dos maiores desastres socioambientais da Amazônia, com impactos que vão além do reservatório e da barragem. O reservatório inundou uma área de quase 3.000 quilômetros quadrados, afogando florestas de igapó e de terra firme. Apenas os planaltos de terra firme em altitudes mais elevadas permaneceram, formando uma paisagem fragmentada de mais de 3.500 ilhas isoladas em um “cemitério de milhões de árvores mortas”, conhecidos “paliteiros”, e a produção ao longo dos anos de um grande volume de gases de efeito estufa, como o metano. A capacidade instalada prevista era de 250 MW, porém, desde o início das operações em fevereiro de 1989, Balbina nunca gerou energia suficiente para atender Manaus que atualmente consome dez vezes mais energia do que essa usina hidrelétrica produz.

Distúrbios espaço-temporais nas florestas alagáveis de igapó a jusante da barragem de Balbina ao longo de um período de 35 anos, resultando em perda de macrohabitats, mortalidade maciça de árvores e perda da diversidade de espécies arbóreas, afetando o funcionamento do ecossistema e o fornecimento de serviços ambientais

Recomendações

O artigo traz recomendações concretas para mitigar os impactos nas áreas alagáveis para as usinas hidrelétricas em fase de operação, construção e planejamento. Para as barragens em operação, os pesquisadores apontam mudanças no modo operacional, de forma que a liberação da água do reservatório simule o regime natural de baixas águas (índice de fluxo de base do período pré-barragem). Enquanto para as barragens em construção, deveriam ser evitadas condições de extrema seca nas áreas alagáveis a jusante durante a instalação, pois isso pode resultar em elevada mortalidade de árvores por falta de água ou por incêndios. “Isso é de extrema importância nos períodos atuais em que mudanças climáticas podem potencializar os impactos devido ao aumento de temperatura e de eventos extremos de secas”, afirma Schöngart.

Para as barragens planejadas, as áreas alagáveis deveriam ser consideradas no Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima), que hoje só leva em conta as áreas que serão impactadas pela construção da barragem e do reservatório. Com base nos estudos sintetizados pelos pesquisadores, o EIA/Rima deveria integrar áreas alagáveis até a confluência com um afluente da mesma ordem de rio sem impactos, ou até a confluência com um rio de ordem superior que amortece as alterações causadas pelo efeito da barragem hidráulica.

“Modelos que permitem simular o nível da água e a descarga do rio deveriam estimar a geração de energia hidrelétrica, condicionada ao modo operacional que simule o regime natural de águas baixas. Isso exige uma reavaliação de muitas barragens planejadas por um consórcio envolvendo os órgãos públicos do governo, cientistas, partes interessadas da sociedade civil, indústria e as agências financeiras para evitar ou pelo menos mitigar os possíveis impactos nas áreas alagáveis”, defendem os pesquisadores.

O estudo também deixa um alerta para a necessidade de políticas públicas eficientes voltadas ao desenvolvimento sustentável da região amazônica: “Precisam avaliar os impactos das barragens planejadas considerando o balanço entre geração de energia e a perda de biodiversidade e serviços ecossistêmicos que afetam as populações indígenas e ribeirinhas tradicionais, em particular, e a sociedade brasileira, em geral”, destacou Schöngart.

Acompanhamento e uso de modernas técnicas

Em 2009, ou seja, 20 anos após a usina iniciar sua operação, os pesquisadores observaram os paliteiros na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uatumã, dezenas de quilômetros a jusante da barragem de Balbina. Isso levou à formulação da hipótese principal do trabalho, de que as árvores morreram por causa da barragem. Os primeiros estudos tiveram início para buscar evidências. Essas atividades foram realizadas pelos participantes do Grupo de Pesquisa Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (GP MAUA/ Inpa), sob coordenação da pesquisadora Maria Teresa Fernandez Piedade, por meio de vários projetos e cooperações, como o Programa LBA (Experimento de Larga Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia) e PELD (Pesquisa Ecológica de Longa Duração), financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), pela Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas) e pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), de forma a permitir uma abordagem sistemática e abordar diferentes componentes da floresta (plântulas, árvores), em nível da espécie de árvore até a escala de paisagem. Os estudos tiveram apoio de parcerias dentro do Inpa (INCT-Adapta, Projeto Atto) e em nível nacional (INCT-Inau, Universidade Estadual Paulista, Universidade de Brasília) e internacional (Instituto Max-Planck de Química em Jena, Instituto Tecnológico de Karlsruhe, ambos na Alemanha), entre outras.

Para testar a hipótese principal e trazer evidências de distúrbios no passado, quando começou a instalação da barragem de Balbina, na década de 1980, os pesquisadores procuraram evidências destes impactos em séries históricas de dados hidrológicos, imagens de satélite e nas informações que as árvores armazenam no seu tronco em forma de anéis de crescimento que podem ser associadas aos anos calendários do passado por meio de datação de radiocarbono e dendrocronologia.

Em paralelo, foram feitos inventários e monitoramentos das florestas de igapó impactados em comparação com igapós sem distúrbios antropogênicos ao longo do rio Abacate, um afluente do rio Uatumã. E os estudos não param. Ainda estão sendo realizados e planejados experimentos em laboratório no Inpa (microcosmos/INCT-Adapta e casa de vegetação) sob condições controladas para obter mais informações sobre as características e respostas de algumas espécies de árvores que dominam os igapós após perturbações.

Após alcançar uma massa crítica de dados, evidências e informações, os pesquisadores elaboraram a síntese que permitiu reconstruir os distúrbios em espaço e tempo desde que a barragem de Balbina começou a ser construída até os tempos atuais. “Mais de dez anos se passaram desde a primeira observação até esta síntese para indicar recomendações concretas às políticas públicas baseadas em vários estudos capacitando alunos de diferentes níveis de formação acadêmica de diversos programas de
pós-graduação do Inpa. A formação de recursos humanos é fundamental para o futuro dos ambientes amazônicos e é um dos mais importantes produtos deste esforço”, destacou a pesquisadora Maria Teresa Fernandez Piedade, que também assina o artigo.

Próximos passos

A Fase 3 do Projeto PELD foi aprovada pelo CNPq e pela Fapeam recentemente, com o título ‘Sítios demonstrativos de ecossistemas de áreas úmidas oligotróficas pristinos e impactados na Amazônia Central: encontrando tendências e preenchendo lacunas’. Nesta fase serão testadas algumas hipóteses formuladas na síntese elaborada, e os estudos integrarão outros componentes, como epífitas, relações entre árvores e fungos, árvores e peixes e impactos socioambientais.

O objetivo é criar um sítio demonstrativo que possa fornecer para vários grupos da sociedade (cientistas, gestores ambientais, tomadores de decisão, ensino de diversos níveis, populações tradicionais e outros) um conhecimento científico integrado sobre a biodiversidade e as inter-relações de componentes-chave da biota, sobre processos e serviços ecossistêmicos, integrando também aspectos socioambientais e políticas públicas.

Da Ascom/Inpa

Foto e imagem: Jochen Schöngart

Amazônia Legal tem nova plataforma de informações para desenvolvimento sustentável

Por César Augusto*

Uma plataforma de acesso a dados consolidados sobre os nove Estados da Amazônia Legal (Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima, Pará, Amapá, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão) foi lançada nesta quarta-feira (24) pela iniciativa Uma Concertação pela Amazônia em webinar transmitido pelo canal Revista Página22, no YouTube. A Amazônia Legal em Dados, com acesso liberado a qualquer pessoa, proporciona de forma inédita uma visão integrada das nove unidades amazônicas, reunindo 113 indicadores em 11 temas como ciência e tecnologia, demografia, desenvolvimento social, educação, economia, infraestrutura, institucional, meio ambiente, saneamento, saúde e segurança.  Todas as informações são obtidas a partir de 16 fontes conhecidas, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desse modo, pretende oferecer uma melhor base para a discussão e implementação de políticas públicas para a região.

A ferramenta, desenvolvida pela empresa Macroplan, traz análises de questões críticas e mostra desafios da região nos últimos 10 anos, além de permitir observações prospectivas, ou seja, como estes indicadores podem evoluir rumo a 2030. Os dados podem ser visualizados por municípios e também dentro de quatro grandes divisões da Amazônia: arco do desmatamento, cidades, região antropizada e região conservada.

Com base nos dados disponibilizados na plataforma, é possível acessar informações, por exmeplo, sobre taxa de homícidios nos nove Estados e seus municípios, número de óbitos por acidentes de trânsito, índices educacionais, dados populacionais e taxa de desemprego. A intenção é buscdar o desenvolvimento sustentável a partir de informações estratégicas, segundo o sócio diretor da Macroplan, Gustavo Morelli. “Não se trata de um repositório de dados, e sim de um hub de inteligência estratégica para apregar valor aos protagonistas desse processo (moradores da região e aqueles que se beneficiam desse momento”, esclarece. Outra característica da plataforma é a possibilidade de identificar os desafios específicos na região com base em algoritmos que os identificam. “Ela foi pensada para o gestor público, o governador, o empresário”, informa. Segundo Morelli, essa primeira versão da plataforma deve ser incrementada aos poucos com o retorno dos usuários.

O representante da Concertação e fellow do Instituto Arapyaú, que participou da concepção do projeto, Francisco Gaetani – também professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundcação Getúlio Vargas (Ebape/FGV) -, afirma çque a plataforma permite uma base para trabalhos na região de forma a alavancar o seu desenvolvimento sustentável. “É um impulso ao esfçroço conjunto de trabalho por uma Amazônia inovadora, transformadora, que respeita suas riquezas e as use como mola para o desenvolvimento. “A região é uma grande vitrine viva do Brasil para o mundo”, declara. “Cada vez mais valorizamos as evidências, pois ajudam a entender a realidade e a tomar as melhores decisões. Neste portal reunimos mais de 100 indicadores em um único lugar para facilitar a obtenção e análise de dados, principalmente para o gestor público”, acrescenta Gateani.

Para o governador do Maranhão e presidente do Consórcio Amazônia Legal, Flávio Dino, a plataforma vai iluminar as realidades da região e reunir dados confiáveis para geração de projetos, captação de recursos e estabelecimento de parcerias para o desenvolvimento sustentável. “Essas iniciativas regionais ganham importância quando existe hoje apologia da ignorância como norteadora de ‘políticas públicas’. Acreditamos no conhecimento como chave de superação dos problemas, sem saídas milagrosas”, aponta o governador.

A secretária executiva de Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas, Tatiana Schor, declara que a iniciativa permite mostrar a utilidade e necessidade dos dados apresentados, possibilitando cruzamento de dados de modo fácil. “Precisamos pensar em como a plataforma vai ser útil nas áreas de atuação”, afirma Schor, com a experieência de quem, como pesquisadora, sempre percebeu a dificuldade de monitoramento de dados pela ausência de informações fidedignas. “Este portal vai além das plataformas que temos disponíveis atualmente, pois permite a análise dos desafios e os recortes temáticos, assim como as possibilidades de fazer perguntas e de ter perspectivas de novas análises. Sabemos que só com os dados que já existem a aferição ainda é fraca”, acrescenta a secretária.

“Existe uma visão maniqueísta sobre a Amazônia que nos leva a cair em armadilhas, e a plataforma vai ajudar a se ter uma melhor noção do que é a região”, avalia o economista e ex-governador do Pará, Simão Jatene. “Os dados ajudam a construir uma história, qualificando melhor os problemas de cada Estado e ajudando a responder melhor a eles”, acrescenta. Para o economista, a Amazônia deve deixar de ser vista como um apêndice do país, em razão de sua extensão, pois ocupa cerca de 60% do território nacional.

“A Concertação nasceu, essencialmente, para a desfragmentação de iniciativas na Amazônia Legal. O lançamento da plataforma é o primeiro passo concreto da iniciativa nesse rumo e tem a intenção de se tornar, mais do que um hub de tecnologia, uma plataforma comum de conhecimento dos dados a ser utilizada por gestores públicos e demais interessados na agenda de desenvolvimento sustentável da região”, diz Renata Piazzon, Secretária Executiva da Concertação pela Amazônia.

Funcionalidades

Pelo portal, é possível checar com agilidade, por exemplo, quais os coeficientes de Gini (que mede a desigualdade de renda domiciliar per capita) dos estados e da região. O território da Amazônia Legal aparece em crescente evolução no coeficiente de Gini, que em 2019 foi de 0,535, próximo da média nacional (0,538), mas ainda distante da região Sul, que foi 0,467. Quanto mais próximo de 1, maior é a desigualdade. O melhor indicador na região foi registrado no Mato Grosso, de 0,456, em 2019, refletindo sua posição como o estado com a melhor renda domiciliar per capita da Amazônia Legal, no valor de R$ 1.360,20, enquanto a média da região é de R$ 872,00.

Ao mesmo tempo, a plataforma Amazônia Legal em Dados mostra que a região teve crescimento nos últimos dez anos tanto do PIB total quanto do PIB per capita. Na década de 2008 a 2018, houve um crescimento real do PIB de 32% e a participação da região no PIB do país subiu 1,5 p.p. no período. Enquanto o PIB per capita da região teve um crescimento médio real de 1,2% ao ano, superior ao do Brasil (0,3%) e das demais regiões do país. Porém, é necessário ousar no crescimento do PIB per capita da região, o qual ainda é 38,7% inferior ao restante do país.

AMAZÔNIA LEGAL EM NÚMEROS

808 municípios (14,5% das cidades do país)

5,1 milhões de quilômetros quadrados (60% do território brasileiro)

29,3 milhões de habitantes (14% do Brasil)

11,2 milhões de ocupados (12% do Brasil)

PIB de R$ 623 bilhões (9% do PIB nacional)

SERVIÇO

Portal Amazônia em Dados – https://amazonialegalemdados.info/home/home.php

Uma Concertação Pela Amazônia

A iniciativa Uma Concertação pela Amazônia nasceu em 2020 sob a premissa de que é preciso gerar conhecimento, promover o debate e buscar consensos sobre os diversos aspectos e dimensões que envolvem a região amazônica. Fazem parte da iniciativa mais de 250 lideranças que priorizaram o entendimento da complexidade da Amazônia como condição essencial para o desenvolvimento do país. São representantes de toda a sociedade brasileira, como governos, entidades filantrópicas, setor econômico, comunidades locais e academia, que buscam soluções de conservação e de desenvolvimento sustentável da região.

Seus membros se encontram em plenárias mensais e em grupos de trabalho para discutirem questões como bioeconomia, regularização fundiária, caminhos para a Cop26 e engajamento do setor privado, voltadas para as quatro macro regiões, classificadas como:

. Amazônia Conservada, que hoje tem boa área de proteção, serviços ambientais e bioeconomia de baixo impacto;

. Arco do Desmatamento, região do agronegócio com predominância do manejo florestal;

. Amazônia Antropizada, com atuação do setor de mineração e agronegócio, e

. Amazônia Urbana, onde predominam os serviços e a indústria.

Ao ampliar vozes, garantir a diversidade e promover um ambiente seguro de trocas, a Concertação busca reduzir a fragmentação de iniciativas e a polarização sobre a região e, assim, construir uma agenda positiva e de longo prazo. Dessa forma, pretende também engajar mais líderes e promover modelos de negócios voltados para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Mais informações: https://pagina22.com.br/uma-concertacao-pela-amazonia/

* Com informações da assessoria de comunicação

Foto: Agência Brasil

Qual o seu papel na construção de um futuro sustentável?

* Por Cristiana Xavier de Brito

Estamos vivendo um período sem precedentes e que nos tem feito refletir sobre como seguir adiante. Foi necessário se reorganizar e estabelecer novos métodos de trabalho para manter os negócios ativos e atrativos. Este momento também mostrou o quanto a sustentabilidade é importante, para o mundo e para as empresas. Não faz tanto tempo, ainda se discutia sobre criar uma área de sustentabilidade e como isso teria impacto nos negócios. Mas hoje podemos afirmar que a sustentabilidade é o próprio negócio.

A sustentabilidade segue sendo uma das principais preocupações da sociedade, com consumidores que dão preferência por organizações que evidenciem em suas atuações os pilares social, ambiental e o econômico. Muitas empresas ainda enfrentam o desafio em manter essas três frentes ativas para os diferentes públicos de interesse das organizações, incluindo investidores que estão cada vez mais atentos a essa questão. Mas como devemos nos preparar para seguir na construção de uma estratégia de negócios sustentável e assertiva? Todas as empresas estão prontas para isso? E se ainda não foi dado o primeiro passo em busca da sustentabilidade dentro da empresa, é possível começar agora?

A boa notícia é que sim. A sustentabilidade é uma jornada, e é preciso entender cada empresa e cada cadeia produtiva para buscar as melhorias incessantemente.

Neste sentido, há 15 anos, foi criada a Fundação Espaço ECO, instituída e mantida pela BASF, que promove o desenvolvimento sustentável no ambiente empresarial e na sociedade. Com uma equipe capacitada e especializada, a instituição elabora projetos de consultoria personalizados que mensuram os impactos econômicos, sociais e ambientais, de processos e produtos de uma organização, isso tudo sob a ótica da sustentabilidade. E o resultado desta consultoria não poderia ser diferente, com um direcionamento claro, a organização pode identificar seus pontos sensíveis e como traçar uma estratégia para fortalecê-los.

Atuando nos mais diferentes setores e com sua experiência, a Fundação identificou as principais tendências da sustentabilidade corporativa e quais devem guiar as discussões nos próximos anos. São eles: cadeia de valor responsável, capital natural, bioeconomia e economia circular.

Reafirmo a importância do diálogo e da troca de experiência e, celebrando os 15 anos da Fundação, foram realizados eventos abertos ao público, nos quais foi possível debater com representantes de empresas, instituições, especialistas e formadores de opinião o futuro da sustentabilidade corporativa e seus desafios. Vimos cases e estratégias e a relação com a performance organizacional, ainda mais neste período que estamos passando, além de reforçar que o tema está “quente” dentro das companhias. No meu caso, que estou muito envolvida com o assunto sustentabilidade no mundo corporativo, é muito gratificante ver isso de fato se tornando realidade.

O que temos como certo é que a sustentabilidade empresarial ainda vai trazer novas formas de conectar os recursos naturais, os bens de capital aos bens de consumo, conectando o capital natural com as demandas de mercado e criando cadeias de fornecimento mais responsáveis. Para isso, é necessário nos manter ativos e atuantes para auxiliar a todos que estão nesta mesma caminhada a acompanhar as tendências e estar alinhados com as demandas, permitindo que todos tenham êxito e conquistas.

Saliento mais uma vez a importância para que as empresas insiram a sustentabilidade nos seus negócios, aqui estamos falando de um número crescente de organizações de todos os portes, e que possam contar com a troca de experiências e o apoio de entidades como a FEE. Afinal, essa é uma demanda que está cada vez mais presente no nosso dia a dia, tanto que estudo recente do Pacto Global apontou que 92% dos CEOs acreditam que sustentabilidade é fator crítico para o sucesso da empresa, porém, apenas 48% estão integrando sustentabilidade na operação.

Temos um longo caminho a percorrer e não podemos desistir ou nos desviar do nosso objetivo. O mais importante é saber que não estamos sozinhos e que não seremos bem-sucedidos se não compartilharmos experiências. Juntos, podemos traçar estratégias e até encontrar soluções que corroborem com o sucesso e benefícios de todos. A pergunta que faço agora é: você está preparado para não desistir e seguir adiante?

* Cristiana Xavier de Brito, diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade da BASF América do Sul e Conselheira da Fundação Espaço ECO

E se for câncer infantil? GRAACC lança cartilha com principais sintomas

No mês em que se celebra o Dia Nacional de Combate ao Câncer Infantojuvenil, no próximo dia 23 de novembro, data instituída para conscientizar sobre a importância do diagnóstico precoce que, com sintomas comuns às doenças de infância, nem sempre são identificados num estágio inicial e muitas vezes passam despercebidos pelos pais, o GRAACC – Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer – lança cartilha sobre esses sintomas dessa doença que registra mais de 8 mil novos casos anualmente no Brasil, mas que tem altas chances de cura.

Anemia, manchas roxas, nódulos, aumento de volume nas pernas, coxas e barriga e dor de cabeça que persistem por dias podem ser confundidos com doenças comuns da infância. “Quanto mais cedo for detectado, maiores serão as chances de cura da doença que, no caso do Hospital do GRAACC, ultrapassam 70%. Para isso é muito importante que pais e responsáveis fiquem atentos a sinais como palidez, manchas roxas, nódulos, aumento de volume nas pernas, coxas e barriga e dores de cabeça frequentes. Não esperem para levar a criança ao médico, principalmente quando qualquer um desses sinais persistam por mais de uma semana”, orienta a Dra. Monica Cypriano, Diretora Clínica do Hospital do GRAACC, referência nacional no tratamento de casos de alta complexidade de câncer infantojuvenil.

Se não for detectada em estágio inicial, o câncer infantojuvenil pode crescer rapidamente e dificultar um bom desfecho clínico. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 8.460 novos casos de câncer infantojuvenil para cada ano do triênio 2020/2022.

Cartilha “E se for câncer infantil?”

O Hospital do GRAACC lançou uma cartilha intitulada “E se for câncer infantil? Os sinais da doença e as chances de cura“, com o objetivo de disseminar o conhecimento sobre este tipo de câncer, tratamentos, chances de cura e esclarecer as principais características dos tipos de maior incidência entre crianças e adolescentes.

“Elaboramos a cartilha focando as especificidades do câncer infantojuvenil, além de informações sobre os tipos de tumores mais comuns e os principais sinais que podem indicar a existência da doença. Queremos que a publicação seja uma fonte de consulta para pais, pediatras e outros profissionais de saúde”, comenta a Dra. Monica Cypriano, que é também a autora do projeto. A cartilha está disponível para download no link: https://bit.ly/36r3oMD

Atenção aos sinais

Alguns sintomas de câncer infantojuvenil são parecidos e muitas vezes confundidos com doenças comuns da infância. Por isso, é importante ficar atento em casos de:

• Manchas roxas e caroços pelo corpo
• Dores nos ossos, principalmente nas pernas, com ou sem inchaço
• Perda de peso
• Aumento ou inchaço na barriga
• Palidez inexplicada e fraqueza constante
• Aumento progressivo dos gânglios linfáticos
• Dores de cabeça, acompanhadas de vômitos
• Febre ou suores constantes e prolongados
• Distúrbios visuais e reflexos nos olhos

Mais Informações no https://www.graacc.org.br

‘Novembro Azul’ também inclui Prevenção ao diabetes

No mês alusivo à saúde do homem, especialmente de conscientização para a prevenção do câncer de próstata, instituições em todo o Brasil também reforçam a importância da prevenção e controle do diabetes, alteração que atinge cerca de 16 milhões de brasileiros, segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Trata-se do movimento mundial de conscientização do ‘Novembro Diabetes Azul’, com base no Dia Mundial do Diabetes, em 14 de novembro.

No ‘Novembro Diabetes Azul’, a superintendente do Núcleo de Educação Permanente da Associação Segeam (Sustentabilidade, Empreendedorismo e Gestão em Saúde do Amazonas), enfermeira Adriana Macedo, explica que o trabalho educativo é voltado para pacientes com a doença e profissionais que atuam no atendimento diário a esse público, incluindo orientação para o autocuidado, atualização de protocolos práticos e de ensino, além de planejamento de ações educativas.

O Diabetes é uma doença metabólica cuja principal característica são os níveis elevados de glicose no sangue. Quando não é tratado corretamente e controlado, o diabetes pode causar várias complicações, como a neuropatia periférica, doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais (AVCs), retinopatia, doença renal crônica e úlceras no pé, que se não tratadas a tempo, podem levar a amputações e até à morte do paciente.

O ‘Novembro Diabetes Azul’ trabalha diversas pautas correlacionadas e, neste ano, o destaque é para profissionais da enfermagem que fazem a diferença nesse contexto, desempenhando um papel vital para a compreensão dos pacientes sobre a condição em que vivem ao desenvolverem a doença e na melhoria da qualidade de vida.

Ambulatório de egressos

No Amazonas, a Segeam atua através do Programa Pé Diabético, que funciona na estrutura das policlínicas da SES-AM (Secretaria de Estado de Saúde), vinculada ao Governo do Estado. O programa é voltado para o tratamento de lesões em membros inferiores dos portadores do diabetes. O Ambulatório de Egressos, que integra o programa, recebe pacientes pós-tratamento de lesões nos pés, para acompanhamento multidisciplinar. O principal objetivo é prevenir novas lesões.

Segundo Adriana Macedo, é importante que o tratamento em nível ambulatorial seja feito através de serviços especializados, garantindo, assim, que os pacientes também sejam orientados para promover o autocuidado em casa.

“Em nível ambulatorial, as boas práticas em diabetes envolvem profissionais de enfermagem, fisioterapia, médicos, nutricionistas, psicólogos, entre outros, uma vez que parte dos pacientes precisa passar por reabilitação e controle constante do quadro clínico”, destaca.

Quanto à etapa de orientações ao paciente, ela explica que pontos importantes são abordados. Entre eles, estão a hipoglicemia e a hiperglicemia (oscilação do nível de açúcar no sangue), o exame diário dos pés, o uso de calçados adequados, a correta higiene e hidratação dessa área do corpo, as implicações de se andar descalço e o corte correto das unhas. Detalhes simples, mas que, segundo ela, podem fazer a diferença.

Nutrição e uso medicamentoso

Um acompanhamento nutricional é de extrema relevância na vida de quem convive com o diabetes, pois, uma boa alimentação, com poucos carboidratos e açúcares, pode ser determinante para o equilíbrio da glicemia. Também contribuem para esse controle a utilização de medicamentos com prescrição médica.

“O planejamento dos pacientes no âmbito hospitalar vai desde a sua admissão, até a pós-alta médica. Hoje, o grande desafio é o controle da glicemia, principalmente no período de pandemia do novo coronavírus, no qual uma parte dos pacientes relaxou nos cuidados.  A preocupação passou a ser redobrada, já que o diabetes descompensado é um fator de risco para o agravamento dos quadros de Covid-19”, destacou Adriana Macedo, ao reforçar a necessidade do comparecimento às consultas de acompanhamento e de seguir as orientações da equipe de saúde.

Foto: Divulgação

“Pantanal: vida, morte e renascimento” em coleção de imagens do bioma

No Dia do Pantanal, nesta quinta-feira, 12 de novembro, o WWF-Brasil lança uma exposição internacional de fotos da maior planície úmida do planeta. O conceito da coleção de imagens é mostrar o bioma em três momentos cruciais vividos em 2020: em seu esplendor, durante as queimadas e na fase subsequente, quando o bioma tenta se recuperar. “Pantanal: Vida, Morte e Renascimento” acontece em ambiente virtual e, portanto, está acessível à população dos três países pelos quais o bioma se estende: Brasil, Bolívia e Paraguai.

A exposição reúne imagens poderosas e emblemáticas da riqueza da biodiversidade e sua emocionante resiliência capturadas pelas lentes de renomados fotógrafos brasileiros, bolivianos e paraguaios, como Araquém Alcântara, André Zumak, Nathália do Valle e Reynaldo Leite Martins Júnior (Brasil), Alejandro de los Rios e Stefflen Reichle (Bolívia) e Lourdes Matoso Mendez e Tatiane Galluppi Selich (Paraguai).

Pantanal ferido e queimado em sua soberania expõe urgência de soluções

Em seu conjunto, as 24 fotos narram a tragédia que se abateu na região pela conjunção da ação da natureza, na forma da maior seca já registrada desde 1973, com a ação humana, que iniciou os incêndios. Embora exaustivamente expostas pela imprensa, as imagens do período de queimadas ainda são uma forte denúncia da exploração insensata da natureza – denúncia esta que se torna ainda mais forte frente ao contraste de como o bioma se encontrava antes das queimadas.

Mas a exposição visa também ressaltar a capacidade regenerativa do Pantanal e a consequente importância de preservação desse bioma nos próximos anos, notadamente as áreas destruídas em 2020. No acumulado dos dez meses deste ano, 4,2 milhões de hectares foram queimados no Pantanal, equivalentes a quase um terço do bioma – uma área que agora precisa de tempo para se recompor. Diversas imagens da exposição mostram que esse renascimento já começou e alimentam a esperança de que o Pantanal recupere sua pujança.

Esperança e renascimento no rosto do povo pantaneiro

A exposição também mostra a resiliência dos povos da região. A brasileira Nathália do Valle optou por mostrar os rostos das pessoas que moram no bioma como símbolo de esperança e renascimento. Tatiane Galluppi Selich, por sua vez, retratou um mito da cultura Yshir Ybytoso, que só existe no Pantanal paraguaio e que, assim como o bioma, está ameaçado.

Para os Yshir, Nemurt é um ser poderoso que representa o equilíbrio do mundo através da bengala que ele segura sobre os ombros: se ele ficar cansado e o abaixar, os seres humanos deixarão de existir. A fotógrafa incluiu esta imagem para mostrar a necessidade de respeito pela cultura e tradições ancestrais, que também precisam ser preservadas.

A exposição é realizada em parceria com a Sciacco Studio (https://www.instagram.com/sciaccostudio/) e ficará disponível de 12/11 a 27/11 na plataforma https://bit.ly/ExpoPantanal


Tatiana Galluppi / WWF-Brasil

Araquem Alcântara / WWF-Brasil

Nathallia do Valle / WWF-Brasil

Aprendendo a cozinhar em francês na Le Cordon Bleu

Por Lenise Ipiranga

Ana Claudia Leocádio, natural do Amazonas, nascida na capital Manaus, com infância vivida no município de Alvarães, jornalista graduada pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), casada com o diplomata Roberto Alfaia, residente em Brasília (DF) quando está no Brasil, levava 20 minutos de metrô de sua casa no 7º Distrito (7º arrondissement) até a escola de culinária Le Cordon Bleu, que fica no 15º Distrito, em Paris. Após nove meses de curso e mais outros três de estágio na própria escola, recebeu seu Diploma de Cozinha – Le Cordon Bleu de Diplôme de Cuisine –, e agora está como estagiária na equipe do Restaurant Guy Savoy, em Paris, um três estrelas Michelin e há quatro anos seguidos considerado o melhor restaurante do mundo pela revista francesa La Liste, da alta gastronomia mundial.

De uma sólida carreira de jornalista em Manaus, na Amazônia, até a nova profissão certificada em Paris, na Europa, a jornada de Ana Claudia Leocádio pelo mundo tem sido enriquecida por diversas conexões com pessoas, comidas, culturas, cidades e países. As voltas ao mundo começaram por conta de sua união, desde a faculdade, com Roberto Alfaia, também amazonense, diplomata brasileiro. Em 2009, selaram a união e Ana Claudia saiu de Manaus para morar em Brasília. A primeira viagem foi em 2011, para a Turquia. “Foram três anos e meio maravilhosos. O país é pura história e cultura. Foi na Turquia que esse dom culinário aflorou em mim”, relembra Ana Claudia.

A jornalista, que trabalhou em assessorias e redações de jornais, como o Jornal do Commercio, Gazeta Mercantil e Diário do Amazonas, conta que mesmo trabalhando muito, ainda em Manaus, sempre reunia amigos e cozinhava em casa. Mas foi na Turquia que Ana Claudia se sentiu motivada a conhecer o mundo da culinária. “Eu adorava experimentar as delícias da cozinha turca. E também queria aprender a cozinhar coisas diferentes para reunir amigos e conhecidos do meio diplomático em nossa casa. Foi muito prazerosa essa descoberta”, reconhece. E confessa que quando viajava para Manaus, voltava com a bagagem cheia de comida – farinha, pirarucu, jambu cozido, tucupi – “essas iguarias que nos dão muita saudade quando estamos longe. E sempre queria mostrar um pouquinho do Amazonas em nossa mesa”.

Nas lembranças da Turquia, Ana Claudia destaca o gosto pelo skender kebab – um assado de cordeiro, servido com molho de tomate e iogurte artesanal –; e pela delícia de Gozleme – um tipo de panqueca super tradicional, que pode ser recheada com um queijo parecido com o Feta. E completa que o bom da mesa turca “são os mézes (refeição ligeira), uma seleção de pequenas porções de petiscos que enchem a mesa para todos compartilharem. Algo bem acolhedor”.

De volta à Brasília, o casal ficou na capital federal de julho de 2014 a dezembro de 2016 e depois seguiu para Abuja, na Nigéria, país berço do que hoje no Brasil é conhecido como candomblé, explica Ana Claudia. “O país tem mais de 250 grupos étnicos, com três etnias dominantes: hauçás, yorubás e igbos”, detalha, para chegar ao ponto da referência culinária. “E uma das características marcantes da comida é a pimenta. Tudo muito apimentado”, conta a cozinheira graduada sobre a descoberta posterior sobre a cozinha yorubá.

E Ana Claudia destaca o uso do azeite de dendê, o peixe seco e uma papa chamada fufu para acompanhar. “Eu amava comer moimoi, que é o abará baiano (bolinho de feijão fradinho moído cozido em banho-maria embrulhado em folha de bananeira). Lá eles comem o acará (bolinho de feijão fradinho, frito no azeite de dendê) como acompanhamento, não como comemos o acarajé no Brasil, pois acarajé para eles quer dizer mais ou menos ‘eu quero acará’”, relembra Ana Claudia de suas preferências culinárias na Nigéria.

Após dois anos no continente africano, sempre guiado pelo trabalho diplomático, o casal seguiu para a Embaixada do Brasil na França, em Paris, em junho de 2018, para um período de três anos. Em suas viagens gastronômicas, ao chegar à França, Ana Claudia conferiu como a cozinha francesa é muito diversa, na qual se aproveita tudo dos animais que servem para alimentação. E reconhece que é muito difícil dizer qual o prato de sua preferência, por gostar de praticamente tudo, com exceção da receita com rim que não curtiu muito – um prato típico do Sudoeste francês. “Uma coisa que me atrai muito são os molhos, porque são eles que fazem a diferença nos pratos”, ressalta. Segundo a cozinheira, uma característica que percebeu é de que para os franceses o ideal é sentir o real sabor dos ingredientes, sem muito exagero de temperos. E relembra que conheceu um chef que dizia detestar comida condimentada por gostar de saber o que estava comendo. E Ana Claudia aponta algumas preferências: “um prato que gosto muito é bochechas de vitela (joues de veau); e também gosto muito de pato confitado (confit de canard). As bochechas de vitela são cozidas em fogo baixo por horas e quando comemos derrete na boca”, enfatiza.

Ao chegar na França, Ana Claudia tratou de se ambientar com a paisagem da região onde mora, com a esplanada e museu dos Inválidos (Esplanade des Invalides); com a gastronomia local, representada por um dos restaurantes populares mais antigos e tradicionais de Paris, o Bouillon  Chartier; e com visitas a pontos como o conjunto monumental de Mont Saint-Michel, na Normandia

Le Cordon Bleu

Antes mesmo de mudar para a Nigéria e depois se/guir para a França, ainda quando estava em Brasília, em 2015, após a Turquia, Ana Claudia resolveu entrar num curso tecnólogo em Gastronomia, no Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB), entre os cinco melhores do país na época, segundo o MEC (Ministério da Educação). “Foi uma escolha acertada. O curso abriu minha mente para coisas que nunca pensaria em relação à cozinha, como: a cadeia produtiva da alimentação; a importância da valorização do produtor; a qualidade”, avalia Ana Claudia, que também fez pós-graduação em Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB).

E ao chegar à França, em 2018, a jornalista amazonense logo se questionou: “por que não unir o útil ao agradável e estudar na mais renomada escola de cozinha do Mundo?”. Ana Claudia então enviou sua inscrição e esperou a resposta, pois para ser aprovada precisa falar em inglês ou francês. Ela já falava em inglês e decidiu investir um pouco mais no estudo do idioma francês, pois gostaria de estudar culinária na língua original da escola. “E foi muito bom, porque faz uma diferença enorme aprender a cozinhar em francês”, avalia, ao explicar que a maioria dos termos e técnicas são na língua francesa. Ela foi aprovada e entrou no programa de imersão, o qual inclui os nove meses de curso, mais três meses de estágio na própria escola e, em seguida, em um restaurante.

“É Diploma de Cozinha. Esse é o título do diploma”, enfatiza Ana Claudia Leocádio sobre o seu Le Cordon Bleu de Diplôme de Cuisine, conquistado no último mês de setembro, deste ano de 2020 tão diferente. “O fato de você conquistar o diploma de cozinheiro no Le Cordon Bleu não te faz chef de cozinha, você é cozinheiro. É um caminho longo”, ressalta a cozinheira, ao falar que ainda não desenvolveu uma receita própria. “Quem sabe daqui uns anos eu possa criar algo bem bacana. Depois que concluímos o curso parece que se abre um leque de possibilidades, mas temos que focar em praticar, trabalhar e melhorar o nosso fazer na cozinha”, avalia.

Ana Claudia Leocadio cumpriu o programa de imersão na escola de culinária Le Cordon Bleu, onde fez muitas provas práticas e muitas amizades

Somente após estagiar na escola, nas cozinhas de preparação das aulas, na preparação e venda no Café, é que foi possível Ana Claudia Leocádio fazer um estágio em um restaurante. “Tive muita sorte”, comemora, ao contar que enviou seu currículo e foi logo aceita, num mercado de trabalho em que a média de idade dos estagiários é de 22 anos. A jornalista cozinheira, aos 43 anos, explica: “aqui eles começam cedo como aprendizes, aos 16 anos. O sistema é bem regulamentado para recebê-los nas empresas. Mas eu não deixo a peteca cair”.

“Agora estou fazendo um estágio no Restaurant Guy Savoy, em Paris. Está sendo uma experiência maravilhosa. Apesar de trabalhar muito, vale cada hora para aprender como funciona a alta gastronomia, ainda mais em um lugar tão requintado da capital francesa”, confirma Ana Claudia sobre todo o esforço empreendido. O restaurante é de propriedade do chef Guy Savoy, aberto em 1980, que funciona desde 2015 na Casa da Moeda, um palácio de 1775, às margens do rio Sena, e reconhecido por quatro anos seguidos como o melhor do mundo pelo ranking La liste e com três estrelas Michelin, o guia de referência mundial de restaurantes e hotéis, de origem francesa, criado em 1900. A cozinheira destaca sua estrutura, com uma grande brigada de cozinha e o foco no produto de qualidade: “por isso o resultado é tão bom. E o foco é bom produto, boa cocção e tempero correto”.

Entre as melhores lembranças do curso: o robalo  em escamas de batata; a sobremesa de creme de castanha portuguesa com chantilly e a amizade da turma de cozinheiros

Vida Amazônica

Jornalista apaixonada pelo seu ofício, Ana Claudia acredita que seu dom para as artes culinárias tem origem e vivência familiar e amazônica. “Minha mãe Nazira Leocádio é uma grande cozinheira”, destaca Ana Claudia, e acrescenta o fato de ter vivido sua infância no município de Alvarães, no interior do Estado do Amazonas, recebendo toda a influência do modo de vida dos seus avós maternos, Joaquina e Luiz Leocádio. “Desde criança fui acostumada a comer o que vinha da natureza. Na época não tínhamos geladeira, energia elétrica e tínhamos que nos alimentar do que tinha no dia – das pescarias, das caçadas, da roça e da horta da minha avó Joaquina. Foi assim que construí meu paladar”, enaltece suas origens, de onde acredita ter herdado o talento para as artes culinárias.

Durante o curso na Le Cordon Bleu, Ana Claudia conta que lembrava demais das iguarias do Amazonas e imaginava como poderia fazer algo a mais com os nossos ingredientes sem, contudo, perder a identidade de cada um. “Essa é a essência da cozinha francesa, na minha percepção: mesmo super sofisticada e elegante, a cozinha francesa valoriza cada ingrediente produzido no país, seus sabores autênticos, fato que as releituras não desprezam isso”, distingue a cozinheira.

“Meus olhos não saem do Amazonas, de ver o quanto nossa gastronomia é rica e precisa ser levada para o mundo para que possamos valorizá-la mais”, incentiva Ana Claudia. E critica a falta de iniciativas públicas e privadas para a valorização de produtos valiosos do Amazonas e Região Norte mundo afora. E expõe a surpresa e susto quando compra a castanha em Paris: “um quilo custa quase 40 euros. Mas o nosso caboclo ganha quase nada lá na ponta da cadeia produtiva”; e ainda tem o cacau com alto valor no mercado; sem falar do açaí, que Ana Claudia avalia o Estado do Pará estar melhor estruturado para explorar esses nichos de mercado.

Da Amazônia à França, até agora, com alguns sacrifícios e algumas milhas de cultura e conhecimento, Ana Claudia Leocádio conta que nada seria possível sem o incentivo de seu marido, o diplomata Roberto Alfaia

Os produtos derivados da mandioca, principalmente as farinhas ovinha e amarela, são um capítulo à parte, segundo Ana Claudia, os quais precisam urgentemente de apoio para salvar os saberes dos produtores tradicionais, que estão envelhecendo e morrendo. “Quem vai produzir com tamanha qualidade? ”, questiona. A amazonense cita o selo de Indicação Geográfica conquistada pela farinha produzida no município de Uarini, em 2019, o qual começou a embalar para exportação. “Isso é muito bom. Mas nos beiradões do rio Solimões tem muitos lugares que produzem farinhas ótimas, que precisam desse incentivo para que as novas gerações possam desfrutar dessa delícia”, alerta. Tem muita coisa para ser feita nesse sentido, diz Ana Claudia, com reais possibilidades, mas para isso precisa organização, planejamento e compromisso do poder público e da iniciativa privada.

Enquanto não sabe o seu próximo destino, Ana Claudia Leocádio reconhece os benefícios alcançados por acompanhar o marido em sua jornada de trabalho como diplomata: “isso me exigiu alguns sacrifícios, mas por outro lado ganhei umas milhas de cultura e conhecimento, pois comecei a me voltar para os estudos”. E enfatiza o apoio irrestrito de seu marido Roberto Alfaia: “nada disso seria possível sem o incentivo e apoio do meu marido. Costumo dizer que ele é meu fã número um”. A jornalista também não está desempenhando sua profissão, mas reafirma que jornalismo é sua paixão e mesmo parada sua mente é uma fonte inesgotável de pautas. E adianta que não gosta muito de falar de futuro, mas espera que o plantio feito até agora dê bons resultados.

“A melhor tática é apostar em todas as vacinas”, afirma Miguel Nicolelis

Para o neurocientista, as autoridades não devem descartar nenhum imunizante que está sendo desenvolvido para conter o avanço do novo coronavírus

Considerado pela Scientific America um dos 20 cientistas mais influentes do mundo, o neurocientista Miguel Nicolelis comparou a busca pela vacina contra o novo coronavírus a uma corrida de cavalos. Para ele, não se pode descartar nenhuma hipótese entre as medicações que estão sendo pesquisadas. Coordenador do Comitê Científico do Consórcio do Nordeste, Nicolelis participou nesta quinta-feira (29) da videoconferência (webinar) “Cérebro, o criador do universo e a Comunicação”, transmitida pela In Press Oficina, e falou sobre ciência, o funcionamento do cérebro e fake news.

“Acredito piamente que a vacina é o grande trunfo que vamos ter para reduzir a taxa de transmissão. A vacina é como corrida de cavalos. Tem 15 cavalos na raia e você de antemão não sabe que cavalo vai ganhar. A melhor tática é apostar em todos. Enquanto ela [vacina] não vem, em teoria teríamos que manter o que funciona, o isolamento”, afirma o Nicolelis.

Em confinamento no seu apartamento em São Paulo desde o início da pandemia, o neurocientista crê que o Brasil falhou desde o início, principalmente por ignorar os avisos externos e minimizar a gravidade da doença. “É a maior tragédia humana da história do Brasil num único evento. Nos deparamos com um sistema e instituições que negaram a gravidade da pandemia. Perdemos a guerra no começo”, diz Nicolelis.

A pandemia colocou o planeta na maior crise dos últimos 100 anos e, segundo ele, comprovou a fragilidade do modelo adotado pela sociedade moderna. “Estamos vivendo momentos épicos da história. Um pacotinho nanométrico de gordura e proteína, com um filete de RNA dentro, pôs a humanidade de joelhos, a ponto de estarmos enfrentando a maior crise econômica, maior que a depressão dos anos 30”, compara.

Entretanto, a vulnerabilidade do sistema não foi o único responsável pelas milhares de mortes causadas pela Covid-19. Nicolelis crê que a disseminação de fake news em larga escala contribuiu decisivamente para ampliar o alcance da pandemia.

“É por isso que muita gente morreu na pandemia. Nós estamos precisando de uma vacina num momento que o jornalismo sério e profissional sofre os maiores ataques da história. Esse processo acelerou com a criação de mídias de massa que permitem que essas notícias se espalhem. O cérebro é mais propenso à fake news do que verdades. E esse é o grande problema do mundo atual”, avalia.

Na mesma direção, a sócia-diretora da In Press Oficina, Patrícia Marins, resume em poucas palavras o cenário criado pelo coronavírus: “a pandemia é também uma crise de confiança, uma guerra de narrativas e desencontros”.

Participaram da entrevista a sócia-diretora da In Press Oficina, Patrícia Marins; a Diretora de Curadoria e Novos Produtos, Miriam Moura; e a Diretora de Relacionamento com o Poder Público, Fernanda Lambach.

O cérebro como criador do universo

Professor da Universidade Duke, nos Estados Unidos, Nicolelis é autor do livro “O Verdadeiro Criador de Tudo – Como o Cérebro Humano Esculpiu o Universo como Nós o Conhecemos”, no qual propõe que o cérebro humano é o verdadeiro criador do universo.

“Para o universo ter significado ele precisa de um intérprete. Não sabemos se existe outra forma inteligente, a nossa melhor escolha para o centro do universo é a mente humana. A brainet é o mecanismo que permitiu criar os grupos sociais mais produtivos. Mitos, deuses, sistemas políticos e dinheiro vêm da mente humana. Nós vivemos imersos na nossa criação”, explica.

Diante dessa teoria de que o cérebro é o centro do universo, Nicolelis defende que a inteligência artificial jamais será capaz de superá-lo. “Dar um download nas nossas memórias e deixar num DVD nunca vai acontecer, porque as memórias são analógicas e depositadas nas sinapses dos neurônios”, diz.

Defensor de uma sociedade matriarcal, como ele mesmo se definiu, o neurocientista ainda fez um contraponto ao historiador e filósofo israelense Yuval Harari, autor do best-seller internacional “Sapiens: Uma breve história da humanidade”, que aborda desde a evolução arcaica da espécie humana na idade da pedra, até o século XXI.

“A minha visão de mundo do Yuval é completamente diferente. Eu gostei muito do Sapiens, achei que ele fez um trabalho muito bom de simplificar ideias complexas. Mas acho que ele cometeu alguns erros de análise e visão, como quando ele diz que os impérios eram inevitáveis. Eu discordo frontalmente. Inclusive eu quero a volta do matriarcado do neolítico superior”, sintetiza Miguel Nicolelis.

Fotos: Reprodução Videoconferência
Texto: Divulgação

Livro e vídeos valorizam saberes da floresta das mulheres do Careiro|AM

Projeto é apoiado pelo GT Agenda 2030 com recursos da União Europeia e promove o valor dos saberes tradicionais e da ciência da floresta

‘Mulheres e as ervas da Amazônia’, sobre o reconhecimento e promoção do valor dos saberes tradicionais e da ciência da floresta. é o livro a ser lançado pelo Instituto 5 Elementos, uma das organizações que integram o Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030 (GT Agenda 2030), no próximo dia 10 de novembro, às 17h30 (hora Brasília-DF), nos canais digitais do instituto. A publicação é acompanhada por dez vídeos educativos que mostram como são produzidas, por exemplo, a pasta de cúrcuma com gengibre, a água de babosa, a máscara facial com pó de açaí, pomada de copaíba e andiroba, batom orgânico, entre outros produtos.

A produção multimídia lança luz aos conhecimentos de mães, agricultoras, artesãs, cozinheiras e curandeiras da Amazônia, sobre o uso das ervas medicinais, suas práticas de manuseio para a criação de produtos para a saúde, bem-estar e beleza, conforme explica Mônica Borba, gestora institucional do Instituto 5 Elementos. E acrescenta que a obra procura não apenas resgatar usos e costumes de ervas da floresta mas, principalmente, valorizar esses saberes como uma riqueza das comunidades e fortalecer uma bioeconomia que preserva a floresta e estimula seu uso sustentável.

A publicação e os vídeos foram produzidos a partir do projeto Agenda 2030 – Saúde e saberes das mulheres de Careiro (AM) –, que em 2020 promoveu uma formação envolvendo 29 mulheres. O projeto recebeu o apoio financeiro do GT Agenda 2030, no I Edital de Seleção Interna de Projetos, que contou com recursos da União Europeia.

Segundo Mônica, a riqueza dos depoimentos e dos conhecimentos dessas mulheres identificada durante o curso acendeu na equipe do projeto a vontade de fazer mais, de levar os saberes daquelas mulheres para além de suas comunidades.

As autoras dos saberes da floresta: Eli Marcia Freitas dos Santos, Liliane Silva do Nascimento, Nilcinha de Jesus Amaral Ferreira e Raimunda Cheila Alves, do município do Careiro, do Estado do Amazonas, estarão na transmissão do lançamento

O projeto foi realizado em parceria com a Casa do Rio e também contou com o apoio financeiro da Associação BEM-TE-VI Diversidade e da Awí Superfoods. No evento de lançamento, haverá a participação de quatro das mulheres da comunidade de Careiro: Eli Marcia Freitas dos Santos, Liliane Silva do Nascimento, Nilcinha de Jesus Amaral Ferreira e Raimunda Cheila Alves. Também participarão as professoras Mônica Borba e Marta Magalhães e o diretor da Casa do Rio, Thiago Cavalli Azambuja.

II Edital 

O GT Agenda 2030 está com chamada aberta para o seu II Edital de Seleção Interna de Projetos. Este ano, estão sendo destinados 98 mil euros para apoiar projetos de promoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) como estratégia para superação das desigualdades, principalmente no contexto da pandemia da Covid-19. Serão apoiadas 12 iniciativas brasileiras de instituições que compõem formalmente o GT. As propostas podem ser enviadas até o dia 9 de novembro pelo e-mail projetoue.gt2030@gmail.com.

Serviço
Lançamento do livro Mulheres e as ervas da Amazônia
Quando: 10.11.2020, das 17h30 às 18h30 (hora de Brasília|DF)
Plataformas: Youtube e Facebook do Instituto 5 Elementos

A politização da vacina

Rodrigo Augusto Prando *

O enredo, aqui no Brasil, já é conhecido. O Presidente Bolsonaro, novamente, desautoriza e submete à humilhação o Ministro da Saúde. Antes, foram Mandetta e Teich, solenemente defenestrados; o primeiro, por defender o distanciamento/isolamento social; o segundo, por não aceitar indicar a cloroquina. Agora, é o General Pazuello, contudo, com uma diferença: os dois primeiros ministros são médicos e o atual, militar. Portanto, seguindo a hierarquia, Pazuello já explicou, limpidamente, que “é simples assim, um manda e outro obedece”.

O caso em tela, com Bolsonaro e Pazuello, está ligado às questões atinentes à vacina produzida com tecnologia chinesa e em parceria com o Instituto Butantan, no estado de São Paulo. O Ministro da Saúde havia se comprometido a comprar cerca de 46 milhões de doses da Coronavac, desde que fosse efetivada a aprovação pela Anvisa, como deve ser neste caso.

No entanto, no dia seguinte, Bolsonaro veio a público afirmar que tal compra não se daria, que não teria aporte do Governo Federal para a “vacina chinesa”. Em mensagem enviada a seus ministros, o presidente asseverou: “Alerto que não compraremos vacina da China, bem como meu governo não mantém diálogo com João Doria sobre covid-19”.

Deste comunicado, é certo que o presidente não mantém diálogo com Doria, aliás, o diálogo de Bolsonaro se dá com as redes sociais, sua base de apoio mais ideológica, e não com médicos, cientistas ou outras lideranças políticas. Mas, é cedo para afirmar que não comprará a vacina chinesa, até porque o caso pode ser judicializado e, ainda, as pressões políticas e da sociedade poderão fazer o presidente recuar. Qual o sentido de tudo isso? As vacinas chinesas não são confiáveis? O tempo de pesquisa não permite confiar nos resultados? O Instituto Butantan não oferece um serviço de qualidade cientificamente comprovada para o Brasil? Nada disso. A vacina de Oxford, por exemplo, está praticamente no mesmo patamar da Coronavac e tem financiamento do Governo Federal.

Então, o que está em jogo são duas dimensões: a ideológica e a política, ambas, infelizmente, colocando a saúde e a vida dos brasileiros em plano inferior.

Ideologicamente, Bolsonaro abandona o ator moderado dos últimos tempos e se volta, com vigor, às redes sociais, onde estão os bolsonaristas mais identificados ideologicamente com os valores sempre tornados públicos pelo presidente: negacionismo e postura anticientífica regados com teorias da conspiração. Isto posto, Bolsonaro e os bolsonaristas condenam a “vacina chinesa” comunista, mas são consumidores de quase tudo o que a China produz e exporta.

* Rodrigo Augusto Prando é Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp.

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