AmazonFACE lança livro no Inpa sobre riscos das mudanças climáticas para a Floresta Amazônica

O programa AmazonFACE lançará no dia 6 de fevereiro o livro “Floresta em risco – as mudanças climáticas destruirão a Floresta Amazônica?”, de autoria do jornalista norte-americano Daniel Grossman e do pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e presidente do comitê científico do programa, David Lapola. O evento acontecerá às 16h, no Paiol da Cultura do Bosque da Ciência do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC), que fica na rua Bem-te-vi, s/nº, Petrópolis, zona Sul de Manaus.

O AmazonFACE (Free Air CO2 Enrichiment) é um Programa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) executado pelo Inpa, que busca entender os impactos das mudanças do clima e do aumento de gás carbônico atmosférico sobre a maior floresta tropical do mundo.

De acordo com o Lapola, o livro discute como as mudanças climáticas podem afetar a Floresta Amazônica, tendo o programa AmazonFACE como pano de fundo para abordar o tema através fotos, ilustrações e textos em linguagem não-científica, em português e inglês. O AmazonFACE lançou recentemente um estudo na conceituada revista PNAS (periódico científico editado pela Academia de Ciência dos Estados Unidos) mostrando que uma possível savanização da floresta Amazônica causada por mudanças climáticas impactaria vários diferentes setores da sociedade na região.

“Portanto, o assunto é de interesse do grande público, tanto no Brasil como no exterior, e não apenas uma peça de curiosidade científica. Levar esse assunto para a sociedade, sobretudo a Amazônica, é dever dos cientistas do programa”, explica o ecólogo David Lapola.

As fotos do livro são de autoria do fotógrafo de natureza João M. Rosa, desenhos do ilustrador biológico Rogério Lupo e prefácio pelo jornalista da Folha de S. Paulo, Marcelo Leite.

A obra foi produzida com recursos destinados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e será distribuída gratuitamente aos 100 primeiros participantes que se cadastrarem no endereço https://goo.gl/forms/LlIdpG2MQufP1eio2 para participar do lançamento.

Participarão do lançamento os autores do livro Daniel Grossman, David Lapola e o fotógrafo João Rosa. A abertura contará com uma breve palestra proferida pelos autores sobre o processo de produção do livro. Uma pequena parte do conteúdo do livro vem sendo exibida desde setembro último no próprio Paiol da Cultura com a exposição “Amazônia e Mudanças Climáticas – um futuro em fotos, ilustrações e ciência”, que segue até 10 de fevereiro.

O livro de 64 páginas teve uma primeira tiragem de 500 exemplares e, após o evento, será distribuído para universidades e escolas de ensino médio da região amazônica. A versão e-book do livro estará disponível no site do programa AmazonFACE.

SERVIÇO

Assunto: Lançamento do Livro “Floresta em Risco” de D. Grossman e D. M. Lapola

Data: 06/02/2019 (quarta-feira)

Horário: 16h

Local: Paiol da Cultura do Bosque da Ciência do Inpa. Endereço: rua Bem-Te-Vi, s/nº, Petrópolis, Manaus-AM

Foto: João Marcos Rosa/AmazonFACE

Veja como denunciar maus-tratos praticados contra animais

A Constituição Federal garante a proteção da fauna e veda práticas que submetam os animais à crueldade (artigo 23, inciso VII; e artigo 225, § 1º e inciso VII). O artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998) considera crime as práticas de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos. Dessa forma cabe a todo cidadão denunciar quando essa prática for de seu conhecimento.

Importante ressaltar que alguns estados e municípios brasileiros, como Distrito Federal, Minas Gerais, Curitiba, Chapecó e outros, também já possuem legislações locais, que definem sanções pela prática de maus-tratos contra a animais.

O que são maus-tratos?

São consideradas como práticas de maus-tratos aos animais: o abandono, a agressão, a mutilação, o envenenamento, a manutenção em local incompatível com seu porte, sem iluminação, ventilação e boa higiene, manutenção do animal exposto ao sol por longo período de tempo ou em lugar sem abrigo de sol, fornecimento de alimentação não compatível com as necessidades do animal, e, ainda, se mantido permanentemente em corrente ou corda muito curta.

Também configura o crime de maus-tratos, entre outros, a utilização de animais em shows que possam lhes causar lesão, pânico ou estresse, assim como a submissão ao esforço excessivo, tanto para animais saudáveis quanto para animais debilitados.

Enfim, todas as práticas que ferem as cinco liberdades dos animais que são: livres de doenças; dor e desconforto; fome e sede; medo e estresse; e também livre para expressar seu comportamento natural.

Denuncie!

Para registrar a denúncia, sugere-se descrever os fatos ocorridos com a maior exatidão, clareza e objetividade possíveis, informando endereço e nome dos responsáveis envolvidos. O denunciante deve anexar provas e evidências, como fotos, vídeos, notícias de jornais, mapas, laudos ou atestados veterinários, bem como nomes de testemunhas e endereços.  Quanto mais detalhada a denúncia, melhor.

Onde denunciar?

Como a prática de maus-tratos é considerada crime, a denúncia deve ser feita na Delegacia de Polícia ou no Ministério Público.

Delegacias de polícia – O boletim de ocorrência pode ser registrado em qualquer delegacia de polícia, inclusive eletronicamente, haja vista que muitas delegacias já dispõem do serviço de registro em seus sites. Alguns municípios e estados possuem, inclusive, delegacias especializadas em meio ambiente ou na defesa animal.

A partir da denúncia, a autoridade policial tem o dever de instaurar inquérito ou o Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO). Caso o policial se recuse a registrar a ocorrência, é preciso procurar o Ministério Público para noticiar o fato, informando os dados da delegacia e do policial.

Ministério Público – A denúncia de prática maus-tratos contra animais pode ser feita diretamente ao Ministério Público, que tem autoridade para propor ação contra os que desrespeitam a Lei de Crimes Ambientais.

O registro pode ser feito pelo site do Ministério Público Federal ou pelas ouvidorias dos Ministérios Públicos estaduais.

Ibama – O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também pode ser acionado, especialmente quando as condições de maus-tratos afetam animais selvagens, silvestres e espécies exóticas.

As denúncias podem ser feitas gratuitamente, pelo telefone 0800 61 8080 ou pelo e-mail linhaverde.sede@ibama.gov.br.

O registro também pode ser realizado pelo site do Ibama ou presencialmente, em uma unidade física da autarquia.

Secretarias de Meio Ambiente – As secretarias de Meio Ambiente dos estados e municípios também devem ser acionadas nas situações onde existam condições de maus-tratos que afetam animais selvagens, silvestres e espécies exóticas, bem como espécies domésticas.

As denúncias podem ser feitas nos canais de contato disponibilizados por estes órgãos.

E se a pessoa envolvida na suspeita for médico-veterinário ou zootecnista?

A lei é para todos e não exime o médico veterinário ou zootecnista de arcar com as consequências éticas além de penais, pois ambos os profissionais dispõem de códigos de ética que proíbem a prática de maus-tratos e os obriga a preservar o bem-estar animal.

CRMVs – Neste caso, além de denunciar no órgão competente, a denúncia deve ser encaminhada para o Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV) do estado em que a situação foi observada, uma vez que são os responsáveis por apurar os fatos e fiscalizar o exercício legal da profissão nos estados.

Após apuração, se houver indícios de maus-tratos, o CRMV abrirá um processo ético-profissional. Compete ao CRMV onde o profissional está inscrito o julgamento dos processos disciplinares, em primeira instância, bem como a aplicação das penalidades previstas no artigo 33, da Lei nº 5.517, de 23 de outubro de 1968, entre elas a censura confidencial, a censura pública ou a suspensão do exercício profissional por até 90 dias.

CFMV – Ao Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) cabe julgar os processos disciplinares em segunda e última instância, a partir dos recursos interpostos contra decisões proferidas pelos CRMVs, conforme Resolução CFMV nº 875, de 12 de dezembro de 2007, que aprova o Código de Processo Ético-Profissional.

Foto: reprodução internet

Boto-vermelho entra para lista vermelha de animais em perigo de extinção

A dois passos da classificação de “extinto”, o boto-vermelho está classificado como “em perigo de extinção” na lista vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) publicado em novembro de 2018. O tucuxi, outro golfinho da Amazônia encontra-se como “dados insuficientes” na lista.

Para conseguir classificar os golfinhos da Amazônia na lista vermelha, a IUCN contou com os dados de pesquisas do Laboratório de Mamíferos Aquáticos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC) coordenado pela pesquisadora Vera da Silva, dentre outros institutos de pesquisas do Brasil e do mundo.

A pesquisadora, que também é responsável pelo projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia patrocinado pela Petrobras, explica que o Projeto Boto do Inpa há 25 anos desenvolve pesquisas com esta espécie na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Mamirauá.

“Desde 2000 as pesquisas nos mostram que a população de botos naquela região vem reduzindo drasticamente a cada década. A preocupação maior é a velocidade que esta espécie está sendo retirada da natureza. Se isso acontece no entorno de uma reserva protegida, modelo na Amazônia, imagine em uma área sem proteção”, questiona a pesquisadora.

Tucuxi

A pesquisadora explica que as ameaças que atingem o boto-vermelho são as mesma que atingem o tucuxi que está na lista da IUCN como “dados insuficientes”.  “Ambas as espécies sofrem com a captura direta, a captura acidental, tem as represas que fragmentam as populações, e também a poluição dos rios, sabemos que nosso rios possuem poluentes como o mercúrio, entre outros, então tudo isso levou a está classificação na lista vermelha”, comenta.

Da Silva comenta que o tucuxi deverá entra na lista em uma categoria de ameaça até março de 2019, após revisão. “O tucuxi é muito capturado acidentalmente em redes de pesca”, explica. Ela acrescenta que isso acontece cada vez com mais frequência por conta da demanda por peixes que está crescendo cada vez mais.

O Projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia engloba o Projeto Boto e o Projeto Peixe-boi que é executado pela Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa), em parceria com o Inpa, e recebe apoio financeiro da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

Pesquisadores do Ampa/Inpa durante captura de botos para coleta de material biológico, marcação, biometria e coleta de outros dados do Projeto Botos do Rio Negro. O projeto foi realizado na comunidade São Thomé – Amazonia – Brasil. Foto: Jonne Roriz/Ampa

Moratória

Ainda segundo a bióloga que é doutora em Ecologia e Reprodução de Mamíferos pela Universidade de Cambridge, a classificação de “em perigo” de extinção é um alerta para as autoridades brasileiras ao que diz respeito às ações para conservação das espécies.

Uma dessas ações evitar as populações do boto-vermelho da extinção foi a moratória assinada em um acordo, em 2014, entre o Ministério de Meio Ambiente e o Ministério de Pesca e Aquicultura, recomendado pelo Ministério Público Federal pelo período de cinco anos.

Para Silva, cinco anos não é o suficiente para essas espécies se recuperarem. “Para a moratória não ser renovada os órgãos responsáveis pela pesca na região terão que provar que a pesca a piracatinga não envolve os golfinhos da Amazônia nessa atividade e que encontraram uma solução para que o boto-vermelho não seja utilizado com isca”, enfatiza a bióloga.

A Campanha Alerta Vermelho  é realizada pela Ampa e tem a parceria do Inpa, MPF, ICMBio, Ibama, Ipaam, IUCN, e o Instituto Anahata.

O status “em alerta de extinção” deve impulsionar uma série de ações que impeçam o desaparecimento do boto-vermelho da região amazônica

Lista vermelha

A lista vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN classifica as espécies em nove grupos definidos por critérios rigorosos que incluem taxa de declínio da população; tamanho e distribuição da população; área de distribuição geográfica e grau de fragmentação.

“Em perigo” é a categoria que evidência que a espécie provavelmente será extinta em um futuro próximo. Segundo a IUCN, este é o segundo estado de conservação mais grave para as espécies na natureza.

Fotos: Ascom/Inpa

Expedição na bacia do rio Branco busca identificar se peixes estão contaminados por mercúrio

Para tentar revelar os níveis de contaminação dos peixes por mercúrio e riscos ao consumo humano, uma equipe multidisciplinar formada por profissionais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) realizou uma expedição para coletar amostras de peixes e de água na bacia do rio Branco, em Roraima, no período de 29 de outubro a 9 de novembro de 2018.

Os trabalhos foram coordenador por Bruno Souza do ICMBio e Fabíola Domingos Moreira, do Inpa. Foram coletados peixes nos rios Branco, Mucajaí e Uraricoera, incluindo a compra de pescado nos mercados de peixe das cidades de Caracaraí e Mucajaí. Mais de 2 mil amostras de tecidos, escamas, nadadeiras, sangue e órgão vitais foram coletados de 240 peixes. O resultado sobre a possível contaminação dos peixes por metais pesados deve sair em 180 dias.

Conforme o pesquisador Romério Bríglia, do ICMBio/RR, a pesca é uma atividade importante no estado, com mais de 6 mil pescadores profissionais atualmente em atividade, sendo esta uma fonte expressiva de alimento e de renda em Roraima.

“A pesquisa é importante pois irá avaliar a presença de mercúrio e a ocorrência de efeitos prejudiciais à saúde dos peixes, sendo que essa contaminação pode refletir em redução do pescado para a população”, destacou Fabíola Domingos Moreira.

De acordo com o analista ambiental Bruno Souza, o estudo contribuirá para a implementação de um protocolo de monitoramento de metais pesados. “Esse protocolo será fundamental para a conservação dos ambientes aquáticos da
Amazônia e manutenção da qualidade do pescado da região”, ressaltou.

O metal pesado mercúrio é utilizado no garimpo de ouro sendo liberado no ambiente e atingindo os rios e igarapés. Estudos anteriores realizados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) já revelaram que parte da população
Yanomami que vive nas proximidades das áreas de garimpo já se encontra contaminada por mercúrio.

O Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Amazônica (Cepam) do ICMBio, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Instituto de Amparo à Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de Roraima (IACTI-RR), a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) são instituições parceiras da iniciativa que foi financiada com recursos do Ministério do Meio Ambiente por meio do Programa ARPA – Áreas Protegidas da Amazônia.

Histórico

Roraima tem uma característica única: é banhado quase que exclusivamente por uma só bacia hidrográfica, a bacia do rio Branco. Historicamente, o Estado tem enfrentado ondas de crescimento da atividade garimpeira ilegal em seus domínios, principalmente em terras indígenas, e à montante da capital, Boa Vista, que concentra mais de 65% da população residente no Estado.

No final dos anos 1980 do século passado, ocorreu um boom dessa atividade, quando mais de 30 mil garimpeiros adentraram na área que seria homologada como terra indígena Yanomami apenas em 1992, quando se decidiu pela
retirada dos garimpeiros e a explosão das pistas de pouso que apoiavam a atividade. Mas de alguns anos pra cá a área foi novamente invadida e o garimpo recrudesceu, agora com mais intensidade, e com o uso de máquinas e
tratores com um potencial de alterar os ambientes de forma ainda mais devastadora. A preocupação com o retorno do garimpo está em saber quais seriam os reais impactos dessa atividade para o meio ambiente e para as populações locais.

Foto: Fabiola Valdez/Inpa

Solo da Amazônia guarda nitrogênio aplicado como fertilizante, mostra pesquisa publicada na ‘Nature’

Um grupo de cientistas descobriu que boa parte do nitrogênio aplicado como fertilizante em plantações de soja e milho na Amazônia fica guardada até seis metros abaixo do solo – mas até quando ainda não se sabe. O estudo, publicado no início de outubro no site Scientific Reports, da revista britânica “Nature”, traz mais informações sobre o que significa intensificar a agricultura na região.

Os pesquisadores, liderados por KathiJo Jankowski, da Agência de Pesquisa Geológica dos Estados Unidos, analisaram o que acontece com o fertilizante aplicado em plantios na Fazenda Tanguro, em Mato Grosso, onde o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) coordena trabalhos científicos em ecologia.

Quando até 80 quilos de nitrogênio por hectare são aplicados em plantações de milho, a planta absorve o fertilizante quase totalmente. Quando a quantidade é maior do que isso – 120, 160 e até 200 quilos de nitrogênio por hectare -, a produtividade não sobe e o excedente fica estocado.

A intensificação da agricultura é uma forma de evitar o desmatamento de novas áreas para a produção. Porém, seus impactos ambientais ainda são pouco entendidos, entre eles os decorrentes do uso de mais fertilizantes. O estudo agora publicado traz um pouco mais de conhecimento sobre esse tema.

Os cientistas receiam que, quando o solo saturar, esse nitrogênio atinja os corpos d’água da Amazônia, com consequências ainda desconhecidas para a biodiversidade e o clima.

A preocupação tem razão de ser: nos Estados Unidos, por exemplo, o uso excessivo de fertilizantes na bacia do Mississipi derrubou a qualidade da água nessa região e criou uma zona morta onde o rio desagua, no Golfo do México, que no ano passado atingiu mais de 22 mil quilômetros quadrados – a concentração de nitrogênio e fósforo é tão alta e a taxa de oxigênio, tão baixa que a vida marinha é inviável ali.

Jankowski explica que há diferenças entre a situação americana e a brasileira, como a forma e a quantidade de nitrogênio aplicado na agricultura, assim como o tipo de solo. Contudo, há semelhanças suficientes entre ambos os casos para levantar uma bandeira de atenção, além de um fator determinante para manter a análise constante da situação: o ineditismo de uma prática sendo aplicada num ritmo alto e de forma extensiva por uma região muito grande.

“A conversão (da vegetação nativa) para soja e milho fertilizados com nitrogênio é muito mais recente na Amazônia e no Cerrado do que na bacia do Mississipi. A área de cultivo casado de soja e milho cresceu mais de dez vezes em Mato Grosso desde 2001”, diz Jankowski.

O tipo de solo onde o estudo foi feito, e que funcionou como uma “esponja” para o nitrogênio, é o latosolo intemperizado, formado em locais quentes e úmidos. Ele é o mais comum na transição entre Cerrado e Amazônia, onde a agricultura tem se intensificado nos últimos anos. Em 2015, cerca de 2,3 milhões de hectares da soja da região (ou 68% do total cultivado) e 4,9 milhões do cultivo casado de soja e milho (80% do total) estão nesse tipo de solo.

O pesquisador Christopher Neill, do Centro de Pesquisa Woods Hole, que também participou do estudo, reforça que a maior parte da monocultura da Amazônia tem se expandido sobre um tipo de solo que, até agora, impediu que o excesso de nitrogênio se movesse para rios e córregos. Mas isso não significa passe livre para o uso indiscriminado de fertilizantes.

“Esse sistema de cultivo tem menos de 20 anos na região, e não conhecemos ainda qual é a capacidade de proteção do solo, quanto tempo dura essa proteção ou que acontece se o índice de nitrogênio acumulado for maior do que a capacidade de retenção”, diz o cientista. “Esses resultados sugerem que é possível usar algum grau de fertilizantes na Amazônia, mas essas são as perguntas críticas que determinarão a sustentabilidade ambiental de um modelo mais intensivo de agricultura na região.”

No caso de a quantidade de nitrogênio exceder a capacidade de retenção do solo, a manutenção de matas ciliares é apontado pelos cientistas como fundamental para reduzir o risco de contaminação de rios e córregos. A vegetação, no caso, pode servir como filtro.

Impacto climático

Outro fator ambiental que também preocupa os cientistas é a emissão de óxido nitroso (N2O), um gás com um potencial 300 vezes maior de piorar o efeito estufa do que o gás carbônico, associado ao uso do fertilizante.

Pela medição dos cientistas, apenas 0,23% da quantidade aplicada normalmente vira N2O, uma taxa muito menor do que a observada globalmente. “A grande maioria do fertilizante é consumida pelo milho, que deixa pouco para ser emitido como N2O”, conta Jankowski.

A preocupação vem da escala da produção: extrapolando a medição, o uso do fertilizante nessa região pode equivaler de 8,8% a 14,7% das emissões diretas de N2O no Brasil.

Foto: reprodução

Especialistas, poder público e usuários debatem o futuro do rio Tarumã-Açu em seminário

Pela primeira vez, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tarumã-Açu (CBHTA) realizará um seminário para debater sobre o futuro pretendido para a bacia do rio Tarumã-Açu. Com a participação da sociedade civil, população, especialistas, poder público e usuários da água (indústrias, agricultura, saneamento), o 1º Seminário do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tarumã-Açu: Planejando o Futuro, acontecerá nos dias 26, 27 e 28 de setembro de 2018, no auditório Auton Furtado Júnior, na sede da Federação das Indústrias do Amazonas (Fieam), em Manaus.

No último dia do evento, participantes da sociedade e membros do CBHTA devem consolidar a proposta para o Plano de Bacia do Tarumã-Açu. É esse documento que reúne as diretrizes de planejamento para ações efetivas para a bacia: a conservação dos seus recursos naturais e a melhoria de qualidade de vida das pessoas que direta e indiretamente a utilizam.

Durante os três dias serão debatidos: a política nacional e estadual de recursos hídricos (legislação e articulação política-institucional); assuntos pertinentes à realidade da bacia do rio Tarumã-Açu; além da troca de experiências com especialistas de outros Comitês de Bacias do Brasil, que compartilharão suas experiências de sucesso frente a realidade amazonense.

“A iniciativa de se discutir a política de recursos hídricos frente à agenda do qual o Comitê de Bacia é responsável, nos coloca na vanguarda da agenda ambiental como operadores de proteção dos recursos hídricos desta região, principalmente pelo fato de estarmos na maior bacia hidrográfica de água doce do mundo, onde possuimos quantidade e qualidade de água”, explica a presidente do CBHTA, Solange Batista Damasceno. Mas ela ressalta que a depender do tipo de uso ao qual se refere “podemos ter esse recurso não disponível”.

Solange explicou ainda que a forma de gestão dos recursos hídricos que for adotada na bacia do Tarumã-Açu poderá servir de exemplo para o Amazonas e até mesmo para a Amazônia. Por isso, explicou, é preciso um planejamento consolidado com os atores que estão direto e indiretamente envolvidos na bacia para que a implementação das ações reflita exatamente a realidade local.

Participantes

Estarão presentes no evento Ministério do Meio Ambiente (MMA), Agência Nacional de Águas (ANA), Fórum Nacional de Comitês de Bacias (FNCBH), Secretaria de Meio Ambiente do Amazonas (Sema), Conselho de Biologia da 6ª. Região (CRBio-06), Comitê de Bacia do Rio São Francisco (CBHSF), Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Universidade Federal do Amazonas (Ufam),Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Manaus (Semmas), Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa), Federação das Indústrias do Amazonas (Fieam), Remada Ambiental, Manaus Ambiental, Instituto de Desenvolvimento Social do Amazonas (Idesam), Fundação Vitória Amazônica (FVA), WCS, entre outros.

A iniciativa é apoiada pelo Observatório da Região Metropolitana de Manaus (ORMM), liderado pela Fundação Vitória Amazônica, que visa fortalecer políticas públicas de planejamento e ordenamento territorial em Manaus e Região.

Oficina

Em consonância com as atividades propostas pelo CBHTA e aproveitando agenda comum, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) conduzirá a oficina “O Brasil que cuida de suas águas: construindo as bases para o Programa Nacional de Revitalização de Bacias Hidrográficas”, que será realizada no dia 25 de setembro de 2018, às 14h, no auditório da Fieam. A oficina visa colher subsídios de instituições parceiras, Comitês de Bacias e sociedade civil para contribuir com o processo de construção do Programa Nacional de Revitalização de Bacias Hidrográficas com vistas à preservação, conservação e recuperação dos rios brasileiros com foco no bioma Amazônia. Também se alinha aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODSs), política da ONU para promover o desenvolvimento sustentável no mundo.

Serviço

1º Seminário do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tarumã-Açu.

Data: 26, 27 e 28 de setembro de 2018, das 9h às 17h

Local: auditório Auton Furtado Júnior / Fieam – avenida Joaquim Nabuco, 1919, Centro

Programação e inscrições: https://www.even3.com.br/1SeminarioCBHTA

 

Foto: Divulgação

Frequência das enchentes do rio Amazonas aumenta cinco vezes em 100 anos, revela pesquisa

Um estudo recente, com mais de cem anos de registros dos níveis do rio Amazonas, indica um aumento significativo na frequência e magnitude das enchentes nos últimos 30 anos em comparação com os primeiros 70 anos da série temporal. A análise realizada por cientistas sobre as potenciais causas do aumento pode contribuir para previsões mais precisas de inundações na bacia Amazônica, a maior hidrobacia do mundo com quase 20% da água doce.

O estudo “Intensificação recente dos extremos de inundação da Amazônia impulsionada pela circulação reforçada de Walker” foi publicado nesta quarta-feira (19) na revista Science Advances pelos pesquisadores Jonathan Barichivich (Universidade Austral de Chile), Manuel Gloor (Escola de Geografia da Universidade de Leeds – Reino Unido), Philippe Peylin (Escola de Geografia da Universidade de Leeds – Reino Unido – França), Roel J. W. Brienen (Escola de Geografia da Universidade de Leeds – Reino Unido), Jochen Schöngart (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Jhan Carlo Espinoza (Instituto Geofísico del Perú), Kanhu C. Pattnayak (Escola de Geografia da Universidade de Leeds – Reino Unido).

Registros diários dos níveis de água do rio Amazonas são realizados no Porto de Manaus desde o início do século passado. O grupo de estudo analisou 113 anos de registros dos níveis de água, que revelaram um aumento na frequência de cheias e secas severas nas últimas duas a três décadas. Os resultados demonstraram que houve, na primeira parte do século 20, cheias severas com níveis de água que ultrapassaram 29 metros (valor de referência para acionar o estado de emergência na cidade de Manaus) aproximadamente a cada 20 anos. Atualmente, cheias extremas ocorrem na média a cada quatro anos.

As mudanças no ciclo hidrológico da bacia Amazônica tem sido graves, com consequências para o bem-estar das populações no Brasil, Peru e outros países amazônicos. Para o pesquisador e integrante do Grupo de Pesquisa do Inpa Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (MAUA), Dr. Jochen Schöngart, a ciência deve fazer uso desse conhecimento atualizado para aperfeiçoar modelos existentes de previsão de cheias na Amazônia Central e servir de subsídio para os tomadores de decisão elaborar políticas públicas, já que terão previsões mais robustas e com certa antecedência.

“Isso permite preparar as populações em áreas urbanas e nas regiões rurais para enfrentar consequências de cheias severas que sempre impactam a qualidade de vida dessas populações”, destaca Schöngart. “As pessoas perdem moradia, sofrem várias doenças, serviços básicos como água potável ficam restritos e a pecuária e agricultura são bastante reduzidas nas várzeas resultando em enormes prejuízos econômicos e sociais para essa parte da sociedade”, completou.

De acordo com o Dr. Jonathan Barichivich, da Universidade Austral do Chile e ex-bolsista de pesquisa da Universidade de Leeds (Reino Unido), o aumento de secas severas na Amazônia tem recebido bastante atenção dos pesquisadores. “Entretanto, o que realmente se destaca no registro ao longo prazo é o aumento da frequência e magnitude das inundações. Cheias extremas na bacia Amazônica têm ocorrido todos os anos, desde 2009 até 2015, com raras exceções”, disse.

Conforme o estudo, o aumento do número de enchentes está relacionado à intensificação da circulação de Walker, um sistema de circulação do ar movido pelo oceano originado pelas diferenças de temperatura e pressão atmosférica sobre os oceanos tropicais. Esse sistema influencia padrões climáticos e pluviométricos em toda a região dos trópicos e além.

Jochen Schöngart, pesquisador do Inpa: conhecimento atualizado deve aperfeiçoar modelos existentes de previsão de cheias e servir de subsídio para políticas públicas (Foto: Luciete Pedrosa/Ascom Inpa)

Mudanças nos oceanos

De acordo com o professor coautor Manuel Gloor, da Escola de Geografia da Universidade de Leeds, esse aumento dramático nas enchentes é causado por mudanças nos oceanos vizinhos, particularmente os oceanos Pacífico e Atlântico e como eles interagem. Ainda segundo Gloor, devido ao forte aquecimento do oceano Atlântico e ao resfriamento do Pacífico no mesmo período, observou-se mudanças na chamada circulação de Walker afetando a precipitação na Amazônia.

“O efeito é mais ou menos o oposto do que acontece durante um El Niño. Ao invés de causar seca, leva a uma maior convecção e precipitação intensa nas regiões central e norte da bacia Amazônica”, explicou Manuel Gloor.

A causa real do aquecimento do Atlântico não está completamente esclarecida. Além da variação natural, o aquecimento global é, no mínimo, parcialmente responsável, mas de maneira inesperada e indireta, de acordo com o estudo. Como resultado do aquecimento dos gases do efeito estufa, cinturões de vento de média a alta latitude no hemisfério Sul se deslocaram mais ao sul, abrindo uma janela de transporte das águas quentes do oceano Índico ao redor do extremo sul da África, através da corrente das Agulhas, em direção ao Atlântico Tropical.

A pesquisa indica que essas enchentes não cessaram ainda. O ano de 2017, que não foi incluído no estudo, registrou novamente o nível de água acima dos 29 metros. Como é esperado que o Atlântico Tropical continue aquecendo mais rápido que o Pacífico Tropical nas próximas décadas, cientistas esperam mais eventos com alto nível de água. Os resultados desse estudo podem auxiliar a prever a probabilidade de enchentes extremas na Amazônia com antecedência e mitigar os impactos para as populações amazônicas rurais e urbanas.

O estudo é resultado de uma oficina internacional que Schöngart organizou com cientistas da Universidade de Leeds, no Inpa, em janeiro de 2016, para fazer uma abordagem do conhecimento atual sobre as mudanças recentes do clima e da hidrologia na bacia Amazônica.

Foto principal: Jochen Schöngart/Inpa

Praia da Ponta Negra receberá ação no Dia Mundial da Limpeza

Para conscientizar as pessoas sobre os cuidados com o meio ambiente e promover a reflexão sobre as ações de cidadania e coletividade, a faculdade Uninassau realizará em parceria com o Instituto Limpa Brasil o projeto Ação Tropical. O evento será realizado no Dia Mundial da Limpeza, no próximo dia 15 de setembro às 8h, na praia da Ponta Negra, zona oeste de Manaus.

O Instituto Limpa Brasil é o representante nacional do Let’s do it!, uma iniciativa que mobiliza centenas de países em defesa do descarte adequado do lixo e que promove anualmente o World Cleanup Day para promover uma grande ação cívica para a limpeza de cidades em todo o mundo.

De acordo com o coordenador de responsabilidade social da Uninassau, Sergio Murilo, é importante envolver os estudantes neste tipo de ação. “A parceria com o Instituto Limpa Brasil é uma oportunidade de unir esforços, aliando o que as unidades já fazem com o maior movimento mundial de cidadania e cuidado com o meio ambiente” disse.

A instituição vai ter uma infraestrutura de apoio, auxiliando com o material de limpeza. Além disso, quem desejar pode levar seu próprio kit de limpeza para colaborar com a ação.

Foto: reprodução da internet

Floresta amazônica reduz capacidade de absorção de carbono chegando a quase zero

Fundamental para a estabilidade do clima do planeta, a floresta amazônica, que até alguns anos absorvia carbono em quantidades muito significativas, do ponto de vista de balanço de carbono total, reduziu essa capacidade e hoje está chegando a zero. Os cientistas consideram a situação preocupante. Em um cenário futuro de mudanças climáticas, em que eventos extremos de secas e grandes inundações são mais frequentes, é possível que a floresta comece a perder carbono para a atmosfera piorando o já grave aquecimento global.

O alerta foi feito no Workshop “As dimensões científicas, sociais e econômicas do desenvolvimento da Amazônia”, realizado em agosto no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). O evento foi organizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Inpa e Instituto Wilson Center.

As pesquisas na região mostram que a Amazônia é um ecossistema altamente crítico no clima global, controlando o ciclo hidrológico, a chuva sobre a própria Amazônia e sul do Brasil, e que armazena uma quantidade enorme de carbono. A ciência estima que a Bacia Amazônica abrigue 16 mil espécies de plantas arbóreas. Já se sabe também que a estação seca na Amazônia está se ampliando em seis dias por década, o que pode parecer pouco, mas é uma alteração significativa.

Segundo o coordenador do workshop e professor da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Artaxo, a floresta amazônica até cerca de 10 a 20 anos fazia um serviço ambiental muito importante de reter todos os anos meia tonelada de carbono por hectare. Este serviço ambiental agora está indo para zero. “Nosso medo é que, a partir de agora, a floresta, além de perder carbono para a atmosfera, e como ela corresponde a dez anos da queima de combustíveis fósseis, perca mais 2%, 3% ou 4% do carbono, pois isso vai aumentar muito o efeito estufa”, disse Artaxo, que também é gerente científico do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA/Inpa/MCTIC).

Segundo o cientista, hoje a floresta é neutra do ponto de vista do carbono. Mas se forem diminuídas as emissões haverá possibilidade de voltar a ter a floresta retendo mais carbono do que emite. “É por isto que temos de lutar hoje”, afirmou.

Paulo Artaxo, cientista e professor da Universidade de São Paulo (USP), durante o workshop realizado pelo Inpa (Foto: Cimone Barros/Ascom Inpa)

As florestas tropicais são o lugar do mundo em que mais se estoca carbono na Terra. O carbono é o quarto elemento mais abundante na atmosfera e é um dos gases de efeito estufa. De acordo com o pesquisador da USP, Luiz Martinelli, se a floresta faz mais fotossíntese do que ela perde carbono pela respiração, essa floresta tende aumentar sua biomassa.

“É disso que estamos precisando, porque, devido ao grande aporte de carbono e CO2 na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis, o clima da Terra está mudando. Então, é extremamente benéfico para o clima que a Amazônia continue limpando esse excesso de carbono na atmosfera, mesmo que lentamente”, explicou Martinelli.

As pesquisas apoiadas pela Fapesp e realizadas em colaboração com o Inpa serão apresentadas em um workshop em Washington, no dia 25 de setembro. A proposta é apresentar para o Banco Mundial e o Fundo Amazônia quais as necessidades de pesquisas que se tem na Amazônia atualmente.

“O Inpa desenvolve pesquisas em várias áreas, desde questões climáticas, agricultura sustentável até tecnologias sociais, que no seu conjunto podem ser aproveitadas para se ter desenvolvimento com base sustentável na região. A questão central é conseguirmos ter ressonância com os políticos quando vão construir os caminhos para a Amazônia”, destacou o coordenador de Pesquisas do Inpa, o pesquisador Paulo Maurício Alencastro.

Ponto de não retorno

De acordo com a pesquisadora do Inpa, Maria Teresa Fernandez Piedade, empresários, políticos e tomadores de decisão precisam entender que a devastação da Amazônia está chegando a um ponto de não retorno, e que isso será prejudicial para todos. Há fortes componentes atuando no desmatamento em níveis muito altos, juntamente com mudanças climáticas globais e ainda uma ação continuada de fogo.

Estudos mostram que a floresta já foi desmatada em 20%, e se aumentar mais cinco pontos percentuais vai perder sua resiliência, alterando o ciclo hidrológico de maneira irreversível – ponto de não retorno, conforme artigo publicado na revista “Science Advances” assinado pelo professor da George Mason University, nos Estados Unidos, Thomas Lovejoy, que participou do workshop via vídeo, e o coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas, o brasileiro Carlos Nobre.

“Esse conjunto de pressões, que antigamente não se considerava como interagindo nos modelos, agora mostra que com 25% de desmatamento da região algumas partes da Amazônia vão atingir um ponto no qual a cobertura vegetal será transformada em um tipo de vegetação mais aberta e pobre em espécies, no processo chamado de savanização. E esse processo não vai ser revertido de forma banal”, alerta Piedade, que é coordenadora do projeto Pesquisa Ecológica de Longa Duração – Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (Peld/Maua).

Na parte central da Amazônia, onde se encontra Manaus, há previsões de modelos climáticos que mostram que a temperatura pode aumentar 5°C até 2050.

Valor econômico dos serviços ambientais

O Brasil não recebe compensação financeira pelos serviços ambientais que a Amazônia realiza. Só os serviços ambientais produzidos na América do Sul são estimados em 14 trilhões de dólares. “Não há dúvidas de que, do ponto de vista econômico, o vapor de água que a Amazônia processa e se transforma em chuva irrigando as culturas de soja no Mato Grosso, culturas de alimento no Rio Grande do Sul, Goiás e em São Paulo, todo esse serviço ambiental vale trilhões de dólares”, afirmou o pesquisador Paulo Artaxo.

Nas próximas décadas, as previsões são de alterações profundas no planeta que afetarão a economia do mundo, e o Brasil precisa se adaptar para esse novo cenário, segundo os cientistas, com a implementação de políticas públicas, melhorando a sustentabilidade, e implantando outras matrizes energéticas como solar e eólica, para as quais o Brasil tem grande potencial.

“Hoje a mais importante dessas políticas é reduzir a taxa de desmatamento da Amazônia que está em cerca de 8 mil quilômetros quadrados por ano, quando era há três anos de 4,5 mil quilômetros quadrados por ano. Essa taxa está aumentando e precisamos urgentemente reduzir o desmatamento na Amazônia até chegar ao desmatamento zero, e isso é possível”, destacou Artaxo.

Foto principal: Sidney Oliveira/Agência Pará/Fotos Públicas

Alterações extremas no regime de seca e cheia podem levar à extinção árvores de igapós, diz pesquisador

Mudança de clima, aumento de temperatura, desmatamentos, queimadas e hidrelétricas são ameaças que podem levar à extinção regional de árvores que só ocorrem nos igapós, áreas alagáveis dos rios de águas pretas da Amazônia. Eventos extremos alteram o regime de cheia e seca (pulso de inundação) desses ambientes vulneráveis, que abrigam cerca de 600 espécies arbóreas que durante milhões de anos se adaptaram para tolerar a inundações sazonais de até dez meses por ano.

O alerta é do pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Jochen Schöngart, que fez a palestra de abertura do 7º Congresso de Iniciação Científica (Conic) sobre distúrbios naturais e antropogênicos em florestas alagáveis de igapó, em 30 de julho.

Os igapós tem lenta dinâmica por falta de nutrientes nos solos. Para suportar a inundação, as árvores fazem adaptações morfoanatômicas, bioquímicas e fisiológicas, por exemplo, desempenhando um metabolismo anaeróbico durante a fase aquática com reservas de carboidratos que a planta produziu e armazenou durante a fase terrestre (não inundada) para poder tolerar o longo período que ficará inundada.

“Quando essas árvores não saem mais da água, desse ambiente, isso causa mortalidade em grande escala. E nessas topografias você tem espécies endêmicas que são tão bem adaptadas que só ocorrem naquele ambiente e com isso são muito vulneráveis também, como é a Eschweilera tenuifolia, conhecida como macacarecuia ou cuieira”, disse Schöngart, vice-coordenador do Grupo Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (Maua).

Conforme o pesquisador, a implementação de usinas hidrelétricas muda o regime hidrológico por armazenar mais água nos reservatórios durante a época chuvosa para liberar essa água na seca para ter uma “produção mais ou menos estável”. O resultado é que os níveis máximos anuais ficam menores e os níveis mínimos anuais ficam mais altos, porque a usina libera mais água durante a seca.

“Isso causa problema para essas espécies arbóreas do igapó, porque elas ficam de repente durante vários anos consecutivos inundados e ultrapassa a capacidade de adaptações dessas espécies resultando em mortalidade de grande escala”, contou o pesquisador, lembrando que Balbina já causou impactos de grande escala pela criação do reservatório que inundou uma área de 4,4 mil quilômetros quadrados.

Pesquisas do Grupo Peld/Mauá mostram que mais de 20 anos depois da usina de Balbina as árvores em florestas de igapó à jusante da barragem continuam morrendo nas topografias mais baixas, aproximadamente 12% dos igapós em até 120 quilômetros depois da barragem são dominadas por árvores mortas, conhecidas como paliteiros. O estudo investigou a conexão entre a represa e as árvores mortas de Macrolobium acaciifolium, conhecida como arapari.

Para futuras instalações de usinas hidrelétricas, o pesquisador sugere que se leve em consideração o reservatório, a região ao redor da usina e as áreas alagáveis à jusante da barragem. Para Schöngart, uma forma de mitigar os impactos é obrigar os operadores das usinas a simular os pulsos de inundação garantindo que as árvores saiam todos os anos durante alguns meses fora da água para renovar suas reservas e evitar a mortalidade em grande escala. “Mas tem de ser implementado na legislação para garantir isso”, disse.

Adaptações

As adaptações ocorrem em diferentes níveis. As morfoanatômicas são formações de raízes adventícias que permitem que a espécie consiga obter água e nutrientes quando o sistema radicular principal já está em condições de solo encharcado ou inundado.

A formação de aerênquima são cavidades de ar dentro do caule e da raiz, e a planta consegue difundir esse oxigênio capturado pelas lenticelas para as raízes e com isso consegue aumentar a concentração dentro da raiz em condições anóxicas (falta de oxigênio) de solo durante a inundação. “Então, ela manda oxigênio capturado da atmosfera pelo tronco para baixo e consegue se manter nessas condições desfavoráveis”, disse o pesquisador.

Foto: Anélia Resende (Maua/Inpa)