Queimadas na Amazônia seguem rastro do desmatamento, mostra análise

O número de focos de calor registrados na Amazônia já é 60% mais alto do que o registrado nos últimos três anos. O pico tem relação com o desmatamento, e não com uma seca mais forte como poderia se supor, segundo nota técnica sobre a atual temporada de queimadas que o Instituto de Pesquisas Ambiental da Amazônia (Ipam) divulgou hoje, 20 de agosto.

Confira a nota técnica na íntegra.

De 1º de janeiro a 14 de agosto, 32.728 focos foram registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Uma das hipóteses para explicar a alta em 2019 seria uma estiagem intensa, como registrada em 2016. Mas ela não se confirmou: apesar da seca, há mais umidade na Amazônia hoje do que havia nos últimos três anos.

Se a seca não explica as queimadas atuais, a retomada da derrubada da floresta faz isso. O fogo é normalmente usado para limpar o terreno depois do desmatamento, e a relação entre os dois fatores é positiva em uma análise entre os focos de calor e o registro de derrubada feito pelo Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD).

“Não há fogo natural na Amazônia. O que há são pessoas que praticam queimadas, que podem piorar e virar incêndios na temporada de seca”, explica a diretora de Ciência do Ipam, Ane Alencar, uma das autoras da nota. “Mesmo em uma estiagem menos intensa do que em 2016, quando sofremos com um El Niño muito forte, o risco do fogo escapar é alto.”

A fumaça desencadeia uma série de problemas respiratórios em quem mora na região, o que gera ainda gastos com saúde pública e prejuízos econômicos pela ausência de funcionários. No Acre, que a nota destaca como exemplo, os satélites já registraram 1.790 focos de calor, número 57% mais alto do que em 2018 e 23% mais alto do que em 2016, com cidades respirando uma quantidade de material particulado muito acima do que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

“As consequências para a população são imensas. A poluição do ar causa doenças e o impacto econômico pode ser alto”, diz o pesquisador sênior do Ipam, Paulo Moutinho. “Combater o desmatamento, que é um vetor das queimadas, e desestimular o uso do fogo para limpar o terreno são fundamentais para garantir a saúde das pessoas e das florestas.”

Foto: reprodução

Edital Cidade+Recicleiros abre inscrições para municípios mudarem a realidade do lixo

Até dia 1º de setembro, todos os municípios brasileiros com população superior a 20 mil habitantes poderão se inscrever gratuitamente no edital Cidade+Recicleiros (cidademais.recicleiros.org.br/). A segunda edição do edital, uma parceria entre o Instituto Recicleiros e a empresa SIG Combibloc, contemplará até 12 cidades com assessoria técnica especializada para o desenvolvimento e implantação de seus programas de coleta seletiva de resíduos. As cidades que se destacarem nessa fase poderão ainda receber Unidades de Processamento de Materiais Recicláveis (UPMR), assessoria técnica de longo prazo, campanhas de conscientização para os moradores, e os recursos necessários para que os Programas de Coleta Seletiva funcionem de forma qualificada, independente, sustentável e economicamente viável. O objetivo? Contribuir para o avanço da coleta seletiva e reciclagem de resíduos pós-consumo em todo Brasil, por meio da implementação e disseminação de modelos inovadores e de alta eficiência em algumas regiões, pois para vencer o desafio do lixo em nível nacional é preciso começar localmente.

Erich Burger, sócio fundador da ONG Recicleiros, ressalta que as cidades não têm custo para receber e implementar o Programa. “O compromisso dos municípios será com a regulamentação da coleta seletiva por meio do plano que desenvolveremos em parceria com a administração municipal, e a realização da coleta e transporte dos resíduos descartados até a Unidade de Processamento de Materiais Recicláveis. Burger também explica a origem dos recursos financeiros necessários ao sucesso da iniciativa. “Eles vêm de um fundo formado pelo Instituto Recicleiros com recursos captados em diversas fontes, como empresas que investem no Cidade+Recicleiros para cumprir com as metas de Logística Reversa das embalagens que colocam no mercado”. Entre as mais de 700 empresas que já aderiram ao Cidade+Recicleiros estão BASF, Cargil, Royal Canin, Red Bull, Colgate Palmolive, Aurora, Mars, Guabí, Ceratti e JBS.

Os investimentos aportados no programa Cidade+Recicleiros não são repassados ao município, mas direcionados à implementação da UPMR (obras e equipamentos); 60 meses de assessoria técnica e apoio à gestão do Programa (prefeitura e cooperativa); formação e capacitação de cooperativa de trabalho para executar os serviços de separação, beneficiamento e destinação do material reciclável; e ações de comunicação para engajar e orientar a população sobre o descarte seletivo. A seleção dos contemplados, baseada em critérios técnicos, será conduzida por um comitê de avaliação composto por especialistas do Instituto Recicleiros e pelos parceiros do edital.

Além do meio ambiente

O Programa Cidade+Recicleiros é fundamentado em três pontos principais: meio ambiente, pessoas e políticas públicas. O programa visa reduzir efetivamente os impactos da má gestão do lixo no meio ambiente, mas não se restringe a isso: a questão social está no holofote assim como as ações de conscientização ambiental e a implantação da UPMR, que será operada por meio de organizações de catadores de materiais recicláveis assessoradas ou mesmo formadas pelo Instituto Recicleiros, gerando trabalho e renda para população em estágio de vulnerabilidade social.

O programa de formação e assessoria técnica para organizações de catadores é uma das especialidades da ONG Recicleiros, que projeta empreendimentos capazes de remunerar seus trabalhadores com pelo menos o equivalente a um salário mínimo, garantindo também férias remuneradas, condições de trabalho adequadas e um ambiente motivador. Planejados para serem sustentáveis do ponto de vista econômico, podem ainda oferecer diversas oportunidades, se bem geridos e, para esse fim, o Instituto Recicleiros oferecerá um programa de assessoria intensiva por 24 meses, além de outros 36 de acompanhamento à gestão dessas organizações. O edital Cidade+Recicleiros 2019 acontecerá em quatro etapas – vale lembrar que a participação no edital é voluntária e gratuita, e não haverá cobrança de qualquer taxa antes, durante ou após o processo de seleção:

• 01/08/19 a 01/09/2019 – Inscrições (formulário disponível em cidademais.recicleiros.org.br);

• Até 20/09/2019 – Envio da documentação (obrigatória e complementar) em arquivos digitalizados – os originais deverão ser enviados ao Instituto caso o município seja selecionado;

• 30/09/2019 a 18/10/2019 – Entrevistas e reuniões entre a equipe Recicleiros e o grupo de trabalho dos municípios pré-selecionados;

• 28/10/2019 – Divulgação dos municípios contemplados e publicação da agenda de trabalho.

“O Programa Cidade+Recicleiros tem um papel muito importante em trabalhar desenvolvendo e apoiando a cadeia de reciclagem no Brasil. A SIG tem o objetivo de ser uma empresa de impacto positivo, e impactar políticas públicas de reciclagem e criar oportunidade de parceria entre os principais influenciadores desta cadeia é um passo importante para alcançarmos este objetivo global”, pontua Isabela De Marchi, responsável pela área de Sustentabilidade da SIG nas Américas.

2018, primeiro edital

No ano passado, os municípios brasileiros contemplados pelo Cidade+Recicleiros foram Casimiro de Abreu (RJ), Naviraí (MS) e Piracaia (SP). Depois das etapas de diagnóstico e desenvolvimento dos Planos de Coleta Seletiva, os municípios agora estão em fase de implantação das Unidades de Processamento de Materiais Recicláveis. O próximo passo será a inauguração das operações das coletas, cujo potencial total de material a ser reciclado mensalmente é de mais de 640 toneladas, com 162 postos de trabalho:

• Casimiro de Abreu: 215 toneladas / 57 cooperados

• Naviraí: 250 toneladas / 62 cooperados

• Piracaia: 175 toneladas / 43 cooperados

“O Cidade+Recicleiros é uma forma segura e efetiva de solucionar a questão da reciclagem em municípios brasileiros, um projeto em que todas as partes saem ganhando: as prefeituras recebem o apoio necessário para efetivar a política pública da coleta seletiva que gera diversos benefícios e atrai visibilidade para a cidade; o setor empresarial investe em nosso programa para fomentar operações de alto impacto socioambiental associadas a resultados efetivos de reciclagem de suas embalagens; os catadores têm condições dignas de trabalho e perspectiva de crescimento; e os cidadãos passam a contar com serviços mais qualificados e um lugar ainda melhor para viver”, conclui Burger.

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Represas andinas planejadas para Peru e Bolívia ameaçam ecossistema fluvial da Amazônia

Seis hidrelétricas planejadas para serem construídas nos maiores rios saindo das montanhas andinas no Peru e na Bolívia são consideradas a maior ameaça ao ecossistema fluvial amazônico. A conclusão é do cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC), o biólogo com doutorado em ecologia Bruce Forsberg. O assunto foi debatido na estreia dos Seminários da Amazônia, que retornaram com nova roupagem após seis anos.

As montanhas andinas são fonte da maior parte de nutrientes e sedimentos que banham as várzeas dos rios da Amazônia, chegando até o final onde são depositados numa área chamada de delta, no final do rio Amazonas, desembocando no mar. Essas barragens novas ameaçam cortar esse fluxo.

Das seis hidrelétricas, quatro serão construídas no Peru (TAM 40, no rio Ucayali; Pongo de Aguirre, no Rio Huallaga; Pongo de Manseriche, no rio Maranon, e Inambari, no rio Inambari) e duas na Bolívia (Agosto Del Bala, no rio Beni; e Rositas, no rio Grande). Juntas devem produzir 10.000 megawatts e a maioria será construída em parceria com Brasil.

Impactos

De acordo com Forsberg, os impactos ambientais dessas hidrelétricas serão muito maiores no Brasil do que no Peru e Bolívia. “Esses reservatórios vão barrar o fluxo dos sedimentos e nutrientes Andinos, que sustentam a produção pesqueira e agrícola das várzeas, que alimenta nossos ribeirinhos”, afirmou Forsberg, que é especialista em ecossistemas fluviais.

Além da redução de quase 70% no fluxo de sedimentos e nutrientes que abastecem os rios da região e o delta do rio Amazonas, o pulso de inundação (subida e descida do nível do rio) será diminuído, causando impacto sobre a flora das várzeas e sobre os peixes que dependem dessa flora para sua alimentação e reprodução.

Outro impacto importante é sobre o mercúrio nos rios, com contaminação prevista acima e abaixo das novas barragens, especialmente no peixe que será consumido pelas populações nessas regiões. O mercúrio é um metal tóxico e pode trazer problemas de saúde quando encontrado em concentrações muito altas no organismo, comprometendo o sistema neurológico, podendo causar tremores nas mãos e dificuldade motora, causando até a morte em casos extremos.

Metilmercúrio

Segundo Forsberg, o mercúrio está presente naturalmente nos rios da Amazônia, que tem solos ricos com esse metal, porém está presente principalmente na forma inorgânica, apresentando pouco risco para os seres humanos. O garimpo de ouro também contribui para o mercúrio nos rios, mas não é a fonte predominante.

O mercúrio só apresenta riscos à saúde humana quando é transformado na forma orgânica, Metilmercúrio. Isso aconteça nos reservatórios quando a floresta da terra firme é alagada e entra em decomposição, tirando o oxigênio da água e promovendo a transformação do mercúrio inorgânico em metilmercúrio. “Uma vez formado, o metilmercúrio acumula na cadeia alimentar, contaminando o peixe e o povo que come esse peixe. Esse impacto é sentido tanto no reservatório quanto no rio à jusante”, explicou o pesquisador.

Esse problema foi verificado no reservatório de Balbina, em Presidente Figueiredo-AM, fechado em 1988. Durante os primeiros dez anos, os níveis de mercúrio no tucunaré e nos cabelos de mulheres que consumiam esse peixe aumentaram muito. O nível em cabelos chegou a um valor considerado perigoso para mulher grávida (7,5 partes por milhão – ppm), depois começou a cair (5 ppm, hoje), mas ainda não voltou ao nível original A Organização Mundial de Saúde (OMS) sugere um valor máximo de 6 ppm de mercúrio em cabelos das mulheres lactantes.

As usinas hidrelétricas também vão aumentar as emissões regionais de gases de efeito estufa (CO2 e metano), que são contabilizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e outras organizações globais.

Enfrentamento

Para enfrentar a situação, Forsberg sugere que os pesquisadores trabalhem em conjunto, de forma transdisciplinar, em colaborações transnacionais, envolvendo parceiros governamentais e não governamentais de todos os países envolvidos.

“Se queremos ter impacto, não adianta só fazermos nossas pesquisas, teses, artigos. Temos de levar essas informações para os governantes, para a sociedade, para criar consciência e ações efetivas sobre esses problemas”, disse Forsberg. “E vamos começar a falar sobre alternativas, outras matrizes, como a solar, que está com o custo por megawatt já quase chegando ao mesmo patamar do megawatt produzido por hidrelétrica”, ressaltou o pesquisador.

Segundo Forsberg, os projetos das hidrelétricas estão parados, especialmente por problemas de corrupção, mas a qualquer momento os governos e construtoras podem retomar os planos. O motivo é que os reservatórios estão previstos para serem construídos em “gargantas profundas”, em montanha com rio grande passando, que dá garantia de grande produção energética, porém com significativos impactos socioambientais que não foram levados em consideração.

Seminários

Realizado de 1976 a 2013, os Seminários da Amazônia voltam com a proposta de discutir temas de ponta da pesquisa científica do mundo e da Amazônia, com temas provocativos e que estimulam a discussão e o aprendizado.

Agora o tradicional evento científico do Inpa acontece quinzenalmente às quintas-feiras, às 15h, no Auditório da Biblioteca, na avenida André Araújo, 2936, Petrópolis, zona Sul de Manaus. É gratuito e aberto à comunidade. A 2ª edição será no dia 25 de abril com o também palestrante da casa, o pesquisador Charles Clement, que falará sobre “Dez mil anos de domesticação da Amazônia”.

Promovido pela Coordenação de Extensão, os Seminários da Amazônia tem na liderança da Comissão Organizadora as pesquisadoras Rita Mesquita e Cristina Cox Fernandes.

Saiba mais

Artigo científico publicado na Plos One sobre o mesmo assunto da palestrado Dr. Bruce Forsberg pode ser acessado clicando aqui.

Foto: Cimone Barros/Inpa


Estudo do Ipea destaca a relevância do programa de defesa da Amazônia Azul

O atraso na implementação do Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz) pode acarretar importantes efeitos ne­gativos não só para a segurança marítima brasileira, mas também para o desenvolvimento científico-tecnológico do país. É o que aponta estudo recém-lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O Programa, iniciado em 2009, passa por uma fase de reformulação desde 2015, decorrente da restrição orçamentária vigente no país.

O trabalho Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul: Soberania, Vigilância e Defesa das Águas Jurisdicionais Brasileiras, coordenado pelo técnico de planejamento e pesquisa do Ipea Israel Oliveira Andrade, ressalta que a extensão da Amazônia Azul – que compreende todo litoral do país e as águas jurisdicionais brasileiras – constitui, por si só, um desafio para a defesa nacional.

Para proteger este espaço marítimo, a Marinha do Brasil tem desenvolvido programas estratégicos, entre eles o SisGAAz, relevante pelas parcerias entre empresas nacionais e estrangeiras que envolvem a transferência de tecnologia e cujo objetivo é desenvolver continuamente sistemas de monitoramento e controle. Neste programa, está previsto também o uso de satélites, radares e equipamentos de sensoriamento por meio da integração de redes de informação e de apoio à decisão.

“Trata-se de ferramenta com alta densidade tecnológica que permite resposta rápida no caso de ameaças, inclusive de tragédias ambientais. Por se tratar de um sistema adaptável e configurável, o SisGAAz beneficia-se dos conceitos de integração de sistemas e interoperabilidade. Pode também contribuir para o aperfeiçoamento do monitoramento aéreo e ambiental, permitir a cooperação com outras instituições do Estado como o Ibama, no combate a ilícitos ambientais, e com a Polícia Federal e Receita Federal, no combate ao tráfico de drogas e contrabando de armas, por exemplo”, explicou Andrade, autor da pesquisa, que teve como coautores Antônio Jorge Ramalho da Rocha e Luiz Gustavo Aversa Franco.

O estudo do Ipea enfatiza que o SisGAAz deve figurar entre as prioridades governamentais por razões econômicas, de soberania e defesa nacional. E manifesta preocupação quanto à contratação de empresas estrangeiras. “Alguns aspectos do programa, como a possível utilização de satélites e o de­senvolvimento de softwares para obtenção de dados, ressaltam a importância do nível de nacionalização das empresas envolvidas. Nesse sentido, a contratação de empresas estrangeiras geraria uma vulnerabilidade, dada a perda de autonomia decorrente da ausência de controle sobre a informação produzida, tornando preferível o uso de recur­sos nacionais”, explicam os pesquisadores.

A Amazônia Azul equivale a mais da metade do território nacional e nela se encontram recursos naturais consideravelmente importantes – cerca de 95% do petróleo e 80% do gás natural produzido pelo país. É, também, rota importante para o comércio marítimo. Por essa área passam aproximadamente 95% da importação e exportação do Brasil, além de linhas de comunicação fundamentais. Há ainda grande concentração populacional nas águas jurisdicionais e forte presença de infraestrutura produtiva brasileira nas regi­ões litorâneas.

Foto: Agência Pará

Cheia do rio Negro este ano deve atingir entre 28,74 e 29,34 metros, segundo previsão do Inpa

A cheia do rio Negro para este ano, em Manaus, deverá alcançar um nível de 29,04 metros com uma margem de erro de 30 centímetros para cima ou para baixo (28,74 a 29,34 metros). A informação tem como base o modelo matemático de previsão de cheias do rio Negro desenvolvido pelo pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC), Jochen Schöngart, do Grupo de Pesquisa Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (MAUA). Pelo modelo, este ano haverá uma cheia que potencialmente causará problemas na cidade de Manaus e nas zonas rurais da região.

De acordo com o pesquisador, o modelo de previsão é uma ferramenta importante para se fazer previsões e evitar possíveis desastres com antecedência de três meses do pico da cheia, normalmente ocorrendo no mês de junho na região da Amazônia Central. “Isto permite que as autoridades tomem providências em casos de cheias severas previstas, tanto na zona urbana quanto na zona rural do Estado”, diz Schöngart.

A partir de 2012, Schöngart adotou uma nova metodologia que integra mais parâmetros independentes para fazer uma nova modelagem e mais “robustas estatisticamente”, reduzindo o erro médio da previsão para 30 centímetros para cima e para baixo. O pesquisador explica também que a nova modelagem de previsão de cheias utiliza uma série temporal longa de dados disponíveis a partir de 1951 até 1990, que foram utilizados para fazer a calibração do modelo, além de dados de 1991 até os dias de hoje para fazer a validação e testar se o modelo é capaz de prever cheias com antecedência de mais de três meses.

Em comparação com o mesmo período do ano passado, o rio Negro, até o dia 15/03, estava com 1,30 metros acima do nível na mesma data marcando 25,81 metros. Porém, em comparação com os meses anteriores o rio encheu pouco neste mês de março, passando por um fenômeno chamado de repiquete nos últimos dias, que é a estagnação do nível das águas até uma pequena descida.

“Este fenômeno é acentuado em anos de El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial na região central-leste. Este ano, as anomalias de temperaturas das águas superficiais indicam a evolução de um El Niño fraco que geralmente afeta as cabeceiras das regiões do norte, central e leste da Bacia Amazônica”, explica Schöngart.

Pelo monitoramento das sub-bacias, realizado pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), os rios Negro e Branco possuem níveis da água abaixo das médias observados neste período, mas os rios Solimões e Madeira possuem níveis expressivamente altas para este período do ano. O Negro na região de Manaus atinge seu nível máximo geralmente na segunda quinzena de junho.

O pesquisador lembra que no Porto de Manaus há um registro excepcional de medições do nível da água que começaram em setembro de 1902. Trata-se de uma série histórica longa que abrange mais de 116 anos. Depois de uma série de cheias extremas, o modelo prevê novamente uma cheia acentuada acima da média das enchentes históricas.

Jochen Schöngart, pesquisador do Inpa: modelo de previsão pode evitar possíveis desastres

Tendência

Segundo Schöngart, tem-se observado nos últimos 30 anos a tendência de aumento de cheias que resultaram nas duas maiores cheias no registro de 2009 (29,77 metros) e 2012 (29,97 metros). Com as cheias nos anos subsequentes de 2013 (29,50 metros), 2014 (29,33 metros), 2015 (29,66 metros) e 2017 (29,00 metros) a região passou por seis cheias extremas durante os últimos dez anos. No período antes da década de 1970 somente nos anos de 1953, 1922 e 1909 foram registradas cheias severas passando o nível crítico de 29 metros. “Este aumento da frequência e magnitude de eventos extremos das cheias é resultado de uma intensificação das Células de Walker”, explica o pesquisador Schongart.

Esse sistema influencia padrões climáticos e pluviométricos principalmente em regiões tropicais movido pelas diferenças de temperaturas e pressão atmosférica sobre os oceanos tropicais, particularmente os oceanos Pacífico e Atlântico e como eles interagem. Devido ao forte aquecimento do oceano Atlântico e ao resfriamento do Pacífico no mesmo período a convecção e precipitação intensificou na Amazônia, principalmente nas regiões central e norte da bacia. O Pacífico mudou recentemente de uma fase fria para uma fase quente, porém a tendência de aquecimento do Atlântico tropical deverá continuar nos próximos anos.

“Sabe-se também que oscilações multidecadais (oscilações de baixa frequência que não mudam ano por ano e sim ao longo de décadas) também têm fortes influências no regime, como, por exemplo, a Oscilação Multidecadal do Atlântico que tem mais influência nas secas e a Oscilação Decadal do Pacífico que tem influência no regime de cheias.

A hidrologia da Amazônia é complexa pelas dimensões da maior hidrobacia do mundo com quase 20% da descarga de água doce para os oceanos. Os três grandes oceanos influenciam a convecção e precipitação na Amazônia pela variação ano por ano da temperatura nas superfícies, mas também pelas oscilações de baixa frequência ao longo de décadas. “Isto mostra a complexidade da hidrologia na Amazônia e a necessidade de sofisticar os modelos de previsão conforme que o nosso conhecimento sobre os fatores que influenciam a Amazônia e os mecanismos por trás disso avança”, destacou Schöngart.

Foto principal: Brasil.gov

Foto interna: Cimone Barros/Inpa

Inpa vai realizar em parceria maior soltura de peixes-bois da Amazônia no final de semana

Doze peixes-bois da Amazônia serão reintroduzidos no próximo fim de semana na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, próximo ao município de Beruri e a 173 quilômetros de Manaus. Esta será a maior soltura de peixes-bois da Amazônia já realizada na história. A ação, que inicia dia 22 e vai até dia 25 de março, é realizada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC), em parceria com o Projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia e o Museu na Floresta.

O Projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia é patrocinado pela Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, e executado pela Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa) em parceria com o Projeto Museu na Floresta, uma cooperação com a Universidade de Quioto (Japão).

Os animais que serão devolvidos à natureza foram vítimas de caça ilegal ou captura acidental, explica o responsável pelo Programa de Reintrodução de Peixes-bois, biólogo Diogo de Souza. “Os peixes-bois filhotes resgatados são reabilitados no Inpa em tanques de fibra. Geralmente, eles perdem a mãe para a caça ou são pegos em redes de pesca”, diz Souza, que é mestre em Biologia de Água Doce e Pesca Interior pelo Inpa.

A coordenadora do Projeto, a pesquisadora do Inpa Vera da Silva, alerta que o peixe-boi da Amazônia (Trichechus inunguis) é uma espécie ameaçada de extinção e por isso o Programa de Reintrodução é essencial para a conservação da espécie. “Eles são animais dóceis e com movimentos lentos, por isso acabam sendo alvos para a caça. E para restabelecer a população dessa espécie, que é muito importante para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos, a Ampa e o Inpa realizam o Programa de Reintrodução de Peixes-Bois há dez anos”, explica a pesquisadora que é doutora pela Universidade de Cambridge.

O Inpa já reintroduziu aos rios da Amazônia 23 peixes-bois. Desde 2016, eles são soltos na RDS Piagaçu-Purus, baixo rio Purus, onde as comunidades dessa unidade de conservação do estado do Amazonas são parceiras do Programa. A última soltura aconteceu em abril de 2018, quando foram reintroduzidos dez animais, cinco machos e cinco fêmeas.

“Nossa ideia é levar de maneira recorde doze animais de uma só vez. O sucesso das solturas passadas com os animais se readaptando muito bem à natureza, nos permitiu acelerar o processo”, ressalta o responsável pelo programa de Reintrodução.

Readaptação à natureza

Após a reabilitação, os animais passam pela etapa de semicativeiro em uma fazenda de piscicultura em Manacapuru durante um ano, antes de serem selecionados para serem soltos na natureza. Já na área de soltura, a várzea da Reserva Piagaçu-Purus, os animais estão aptos para se alimentar sozinhos, explica Souza.

“Eles comem por dia o equivalente a cerca de 10% do seu peso e no cativeiro, em Manaus, são alimentados prioritariamente com vegetais cultivados e capim membeca. Na Reserva, estes animais terão uma diversidade na dieta de mais de 60 espécies de plantas aquáticas”, comenta.

Os animais selecionados têm idade entre três e 16 anos, pesam cerca de 120 quilos e medem em média 2 metros de comprimento. Os resultados clínicos foram satisfatórios e selecionados os doze animais mais aptos para a soltura (sete fêmeas e cinco machos). Os machos são o Terra Nova, Otinga, Piraporã, Manicoré e #183 (ainda sem nome); e as fêmeas Ayara, Poraquequara, Janã, Jaci, Maná, Anibá e Urucará.

Conforme Souza, os animais estão em boas condições de saúde, com peso e tamanho adequados. “Dos 12 animais, cinco receberão os cintos transmissores para monitoramento pós-soltura”, destaca o biólogo, e acrescenta que os outros sete serão soltos diretamente na natureza e não serão monitorados em razão de 100% de sucesso na adaptação dos outros indivíduos que já foram reintroduzidos.

A operação

A equipe sairá da sede do Inpa, em Manaus, na madrugada de sexta-feira (22) e deverá chegar ao amanhecer no lago do semicativeiro, em Manacapuru. Lá, os doze peixes-bois selecionados deverão ser recapturados e retirados do lago um a um e transportados de caminhão até o barco, numa distância de 500 metros.

O barco, ancorado as margens do rio Solimões, estará equipado com três piscinas de fibra para acondicionar os animais durante a viagem, que deverá durar 15 horas até a Reserva Piagaçu-Purus, localizada entre os interflúvios Purus-Madeira e Purus-Juruá.

Durante a viagem, os animais serão monitorados em tempo integral pela equipe do Laboratório de Mamíferos Aquáticos (LMA/Inpa), para avaliar o comportamento dos animais, verificar a frequência respiratória e troca de água das piscinas.

A chegada dos peixes-bois na Reserva está prevista para a manhã de sábado (23), quando haverá uma atividade de educação ambiental com os moradores das comunidades da reserva para conscientizar sobre a importância da preservação do peixe-boi.  À tarde do mesmo dia, a expedição segue para o local de soltura, um lago de várzea na RDS Piagaçu-Purus.

Serão soltos na natureza oito animais no primeiro dia, e outros quatro no segundo dia, e iniciado o monitoramento por radiotelemetria. Após o encerramento das atividades, previsto para a tarde do dia 24 de março (domingo), a equipe retorna para a capital devendo chegar na manhã seguinte (25).

Foto: Luciete Pedrosa/acervo Inpa

Fórum inicia agenda de mobilização em Manaus com abraço simbólico e caminhada pelo Dia Mundial da Água

Conservação de nascentes, lagos, igarapés e rios; fiscalização e implementação de comitês de bacia hidrográfica; informação e transparência sobre políticas públicas voltadas para esgotamento sanitário e abastecimento de água em Manaus são algumas das principais preocupações do Fórum das Águas, coletivo de entidades da sociedade civil que promove, nos próximos dias 21 e 22 de março, uma intensa programação em comemoração ao Dia Mundial da Água na capital amazonense e cujo lema deste ano é “A Água nossa de cada dia”.

O objetivo é inserir o tema na pauta da cidade a fim de despertar linhas de reflexão e ação, além de incidir em políticas públicas que entendam que água deva ser tratada de modo inteligente, recuperando a biodiversidade dos mananciais de água, tendo em vista a preservação do meio ambiente, uma vez que a água é a única fonte de riqueza natural que, se extinta, leva à destruição da vida na Terra.  

A programação consta de dois dias de atividades: no dia 21.03, a partir das 16h, haverá mobilização com cartazes e faixas educativas para chamar a atenção da população sobre a importância do Dia Mundial da Água. No dia 22.03, haverá abraço simbólico da nascente do Tarumã no bairro Jorge Teixeira às 9h, coordenado pelo Projeto Salve o Mindu, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Às 15h, a caminhada pela Água inicia na Praça Paulo Jacob, na avenida Igarapé de Manaus, Centro, e segue até a Praça da Matriz, com previsão de chegada às 17h. 

Para se ter uma idéia sobre a importância do tema e a dimensão do problema, basta considerar que o planeta Terra, embora seja composto por 70% de água, somente 0,7% é potável. Nesse contexto, a crise que afeta os igarapés da Bacia do São Raimundo, também afetam com a mesma intensidade de impacto, outras dez bacias hidrográficas de Manaus cujo sentido da correnteza, em geral poluída, é o rio Negro, tributário da maior e mais importante bacia hidrográfica do planeta, a Bacia Amazônica.

“É neste conceito que o Fórum das Águas baseia sua preocupação e princípio de luta, desde 2012. E não estamos sozinhos: tivemos a Campanha da Fraternidade 2016 com o tema ‘Casa comum, nossa responsabilidade’, que reacendeu a discussão sobre nossa responsabilidade com o Meio Ambiente, uma vez que o mundo em que vivemos é uma casa para todas as pessoas. Além disso, conseguimos aprovar a realização do Sínodo sobre a Amazônia, que abriga o maior manancial de água do planeta. Então, temos esta responsabilidade de garantir a existência das gerações futuras, mas que é preciso que comecemos porque já estamos atrasados”, afirmou o padre jesuíta Paulo Tadeu Barausse, do Serviço de Ação, Reflexão e Educação Social (Sares), uma das instituições fundadoras do Fórum.

Ele lembra ainda que, a exemplo da tragédia ocorrida em Brumadinho (MG), com o rompimento da barragem do Córrego do Feijão onde havia exploração de minério, não há, no Brasil, legislação que ampare o julgamento de crimes contra mãe natureza. “Diante disso, fica-se à mercê da justiça comum, sem que haja qualquer parâmetro de responsabilização e todo esse contexto é o motivador da nossa luta”, completou o jesuíta.

Em nível mundial, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu, ainda em 2018, a “Década Internacional para a Ação: Água para o Desenvolvimento Sustentável (2018-2028)” como forma de alertar e estimular ações em busca de solução para o problema.

Em Manaus, a proposta de renaturalização do igarapé do Mindu e de criação do Comitê da Bacia do Mindu, a partir dos conselhos do Parque Municipal Nascentes do Mindu, Parque do Mindu e Parque dos Bilhares, idealizado e encampado pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), é uma das formas de iniciar o movimento de resgate e preservação de um dos principais cursos de água receptor de resíduos. A renaturalização é um conceito mundial já adotado, por exemplo, no rio Tâmisa, em Londres; e Cheonggyecheon, em Seul, modificando o cenário urbano-turístico e gerando positivo no ambiente e na economia. Estudo coordenado e orientado pela geógrafa Selma Batista, professora da instituição de ensino que também integra do Fórum das Águas, aponta que manter o modelo de canalização e aterramento de cursos d’água contribui para a produção de cenários de crise e risco socioambiental, provocados por inundações, deslizamentos, doença de veiculação hídrica entre outros danos para o homem e Natureza.

Responsável pelo “Projeto Salve o Mindu”, Selma Batista explica que a importância de se olhar para o curso d’água se dá em função das suas dimensões e localização geográfica: é o maior igarapé da cidade, com 16 quilômetros de extensão, atravessando 12 bairros de Manaus como marco divisor da cidade em Leste e Oeste. Em mais 4 quilômetros, juntamente com outros afluentes, alcança o rio Negro onde descarta toneladas de lixo, resíduos, entulhos e esgoto, carregados pela correnteza das águas das chuvas. Quando torrenciais, provocam inundações colocando em risco a população, irregularmente residente em suas margens ou mesmo as regulares, cadastradas com IPTU.

“O que considerávamos como ‘geração futura’ já são os nossos filhos e o que deixamos de legado, de cuidado com a água? Por isso trazemos esta proposta de começarmos cuidando do Mindu sem perdermos de vista a perspectiva da importância da luta sobre outras complexidades que envolvem o assunto água, como esgotamento sanitário e abastecimento, por exemplo”, afirma Batista.

Ela aponta como exemplo, a necessidade de discussão e reflexão junto à sociedade sobre a eficácia de projetos como Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim), implementado pelo Governo do Estado do Amazonas na bacia do Educandos; o Programa de Desenvolvimento Urbano e Inclusão Socioambiental de Manaus (Prourbis), na bacia do São Raimundo; e o Programa de Integração, Mobilidade e Desenvolvimento da Cidade de Manaus (PIMD/Manaus) que, juntos, somam um volume total de empréstimos de mais de US$ 1,35 bilhão, o que acaba por endividar Estado e Município sem, no entanto, terem corrigido o problema, colocando em risco os recursos hídricos urbanos, as encostas, a mata ciliar e o clima de Manaus.

Na avaliação de estudos coordenados pela UEA, o cenário sinaliza a necessidade, em curto prazo, de nova captação de recursos para intervenções corretivas em infraestrutura urbanística ou habitacional, ainda que os recursos anteriores não tenham atendido as metas estabelecidas, como, por exemplo, a cobertura da rede de esgoto sanitário instalada pelo Prosamim que se encontra em parte, ociosa.

Programação para o Dia Mundial da Água em Manaus foi divulgada pelo Fórum das Águas

Representante da comunidade João Paulo, no bairro Jorge Teixeira, seo Salatiel Cirilo Cordovil dos Reis sempre militou em prol do benefício do tratamento de água e do esgotamento sanitário em Manaus. “Água é vida”, afirma categoricamente.  Fundador do Fórum das Águas desde 2012, ele aprendeu no dia a dia e por meio da fiscalização de obras, a identificar situações que comprometem as comunidades do bairro e que não visam um futuro de preservação do consumo de água. “Em pouco tempo teremos áreas alagadas na região do Jorge Teixeira por conta de obras como o Prourbis que nem ao menos terminaram e já não servem ao propósito original”, afirmou, explicando que atualmente o esgoto captado não é tratado corretamente. 

Para o presidente do Instituto Sumaúma, Augusto Leite, salvar um fragmento de floresta que hoje é o parque Sumaúma é um dos exemplos do que pode ser construído a partir da coletividade. As ações coordenadas pelo parque incluem mobilização de comunitários e moradores do entorno para serem mais vigilantes quanto a irregularidades, bem como incentivar a educação de crianças do entorno e nas escolas.

O empoderamento de agentes multiplicadores, por meio da informação e conhecimento, dentro do contexto de Comitê de Bacia Hidrográfica, também um dos pontos incentivados pelo Fórum das Águas.  “Vejo que ainda não estamos tão impactados quanto às demais bacias, mas estamos suscetíveis a isso. Estamos consolidando a formação de uma agenda comum, de formação dos comitês de bacia. E isso é uma política muito forte, por exemplo, em MG, onde representantes de todos os comitês se uniram estar no local do acidente de Brumadinho, bem como cobrar e propor soluções, bem como promover políticas públicas que resguardem as águas”, afirmou a bióloga Solange Batista Damasceno, presidente do Comitê de Bacia do Tarumã-Açu, e Conselheira do Conselho Regional de Biologia da 6ª região.

“Ainda não estamos tão impactados quanto às demais bacias de Manaus, mas estamos suscetíveis a isso. A ausência de uma consciência amazônica de pertencimento e de uma cultura de descarte adequada precisa ser trabalhada”, afirma a bióloga que também é educadora ambiental.

O Fórum

O Fórum das Águas tem como princípio ser espaço público, amplo e democrático, aberto ao debate de ideias e experiências, articulador de ações eficazes junto aos movimentos da sociedade civil, lideranças comunitárias, educadores ambientais e demais entidades com a proposta de incidir na construção de políticas sobre a água na cidade de Manaus.

Integram o Fórum das Águas: Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares); MovimentoSalve o Mindu da Universidade do Estado do Amazonas – UEA; Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Tarumã-Açu (CBHTA); Instituto Sumaúma; Escola Municipal Francisca Nunes; Movimento Cultufuturista da Amazônia; Levante Popular da Juventude; Engajamundo; Rede um grito pela vida; Conselho de Leigos e Leigas da Arquidiocese de Manaus; Comunidade Eclesial de Base (CEBs) regional Norte 1; Movimento Socioambiental SOS Encontro das Águas; Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (SJPAM); Amigos Sementes da Natureza do Puraquequara; Parque Municipal Nascente do Mindu; Pastoral da Criança da Arquidiocese de Manaus; Equipe Itinerante; Movimento de Mulheres Negras da Floresta – Dandara; Fórum Permanente das Mulheres de Manaus

Dia Mundial

Instituído Organização das Nações Unidas (ONU) em 21 de fevereiro de 1993, o Dia Mundial da Água, comemorado em 22 de março, foi criado para alertar a população mundial acerca da importância da preservação hídrica para a sobrevivência de todos os ecossistemas do planeta.

De acordo com a ONU, a água potável é um direito humano garantido por lei desde 2010. Mesmo o planeta Terra sendo constituído por aproximadamente 70% de água, apenas 0,7% de toda a água do mundo é potável. É considerada água potável a que é adequada para o consumo humano.

PROGRAMAÇÃO DA SEMANA MUNDIAL DA ÁGUA (22 DE MARÇO)

Dia 21.03: Mobilização para o dia 22 na Bola do Produtor; às 16h

Dia 22.03: Abraço das Nascentes (Nascente do Mindu – Jorge Texeira) – 9h às 11h;

Dia 22.03: Caminhada pela água – Concentração às 15h na Praça Paulo Jacob (Av. Igarapé de Manaus – Centro) até à Praça da Matriz (previsão de chegada às 17h)

Foto principal: Valter Calheiros

Foto interna: Divulgação

Startup usa bactérias na despoluição das águas de rios e lagos

Agência Sebrae

A tragédia do rompimento da barragem em Brumadinho não só gerou uma onda de solidariedade em todo o país, mas também colocou a tecnologia a favor das vítimas. Como fez em 2015, no acidente semelhante ocorrido em Mariana, também em Minas Gerais, a O2eco, uma startup de São Paulo, disponibilizou seu processo de limpeza de água, que usa bactérias na regeneração de áreas poluídas de rios, lagos, lagoas, entre outros, para ajudar na limpeza das águas próximas ao local do desastre. A empresa se enquadra no 14º dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Desde 2015, a instituição é parceira do Sebrae no fomento aos negócios de impacto social e ambiental.

Segundo Luís Fernando Magalhães, um dos quatro sócios da O2eco, o processo utilizado pela startup veio da Austrália, país onde morou por 14 anos. Hoje, a empresa tem licenciamento para fabricar o produto no Brasil. “Usamos uma placa de cera com nanominerais dentro dela para estimular a criação de bactérias saudáveis que ajudam na limpeza de lagos, rios e lagoas”, explica Magalhães. Ele detalha que com o uso da tecnologia, a produção de bactérias pode crescer de oito mil vezes para 10 milhões de vezes a cada 10 horas. “Isso faz com que o consumo de materiais orgânicos e inorgânicos seja mais rápido e, depois, com a água sem sujeira, as bactérias morrem de inanição”.

A primeira experiência da startup em um desastre ocorreu em 2015, após o rompimento da barragem de minério em Mariana. A O2eco foi chamada para fazer o trabalho no Rio Doce, que ficou contaminado pela lama projetada na água. Segundo Magalhães, o processo de descontaminação foi positivo e conseguiu, por exemplo, abaixar o nível do alumínio derramado em torno de 57% em cinco semanas. As placas utilizadas nos rios podem ter uma vida útil de até nove meses.

De origem australiana, o processo utilizado por Magalhães e seus outros três sócios também já existe em 11 países do mundo, mas não apenas para a limpeza de ambientes hídricos, como também em outras áreas. Em estações de tratamento, os meios usados são os mesmos dos rios, que é por meio da bioestimulação de microrganismos que aceleram a despoluição. Além disso, a tecnologia pode ser utilizada no agronegócio, principalmente no descarte de material orgânico. Segundo o empresário, todo o processo é feito sem produtos químicos, assim como nos tanques utilizados na aquicultura, que possuem uma densidade muito grande de animais e carga orgânica.

Sediada em São José dos Campos, no interior de São Paulo, a O2eco também é considerada um negócio social, já que seus sócios doam tratamento de água para cidades, como fez no próprio município onde está instalada, No Rio de Janeiro, a startup disponibilizou um trabalho gratuito em uma área de até 10 mil metros quadrados. “Nós temos um propósito social e ambiental”, afirma Magalhães. Segundo ele, a tecnologia da despoluição da empresa também está à disposição de escolas.

Foto: Agência EBC

Tempestades de vento intensificam a degradação de florestas na Amazônia

As tempestades de vento são distúrbios que ocorrem naturalmente na Amazônia, porém podem amplificar os impactos na floresta do desmatamento e o fogo. Um artigo científico publicado na revista “Journal of Ecology”, com autoria de cientistas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), explora as sinergias entre a derrubada de florestas, fogo e tempestade de vento como causas da degradação na Amazônia. As áreas mais fragmentadas e as já atingidas previamente por fogo são as que mais sofrem com os efeitos das tempestades de vento.

O estudo quantificou as respostas da vegetação a uma tempestade de alta intensidade que durou cerca de 30 minutos e ocorreu no sul da Amazônia em um experimento de fogo em grande escala em 2012. Os dados coletados antes e após a tempestade indicaram que os danos foram maiores para grandes árvores, em áreas perto da borda da floresta, e em áreas queimadas em anos anteriores.

A área experimental fica na Fazenda Tanguro, em Mato Grosso, onde o Ipam  desenvolve o Projeto Tanguro, e consiste em três parcelas de 50 hectares estabelecidas em 2004, sendo uma que nunca foi queimada (mantida como controle), uma queimada anualmente e outra queimada em intervalos de três anos. Os resultados mostraram que a tempestade de vento podou, quebrou e arrancou árvores. Nas parcelas queimadas anualmente, 13% das árvores foram danificadas; na queimada a cada três anos foram 17% e, na parcela de controle, apenas 8%.

Quatro anos após a tempestade de vento, cerca de 85% das árvores atingidas pelo vento nas áreas queimadas e 57% na parcela controle morreram. Outro estudo, publicado em 2018 com participação de um pesquisador do Ipam, mostrou um aumento na taxa de mortalidade de árvores em florestas tropicais de diversas partes do mundo devido ao aumento da temperatura, secas longas e piores, ventos mais fortes, entre outros fatores.

O pesquisador do Ipam Divino Silvério, que liderou o trabalho, explica que os resultados são importantes por mostrarem alguns dos processos que levam à grande mortalidade de árvores nas florestas atingidas pelo fogo, mesmo vários anos após a ocorrência dos incêndios. “O fogo torna os troncos mais frágeis e mais fáceis de ser quebrados pelo vento”, afirma Silvério. Ao mesmo tempo, prossegue, a passagem do fogo reduz a densidade das árvores e a camada de raízes no solo que dá sustentação aos troncos. Esses processos tornam as árvores remanescentes muito mais expostas aos ventos. “Mesmo ventos não tão intensos já são suficientes para causar o tombamento das árvores”, afirma o cientista.

Silvério diz também que o fogo tende a matar preferencialmente as árvores menores, deixando para trás as árvores maiores – justamente as que ficam mais expostas aos ventos intensos. Uma vez que a maior parte do carbono das florestas está estocado nas árvores grandes, e que estas são atingidas preferencialmente pelos ventos fortes, grande quantidade da biomassa estocada nas florestas é perdida neste processo.

Tudo indica que as alterações climáticas em curso aumentem a frequência e a intensidade de tempestades de vento, assim, a interação deste fator com outros processos de degradação causados pelo homem, colocam em xeque a estabilidade da floresta.

O Projeto Tanguro é um esforço científico com o objetivo de conciliar a produção de alimentos e a integridade ambiental com as mudanças climáticas globais e locais. Ele é composto por um grupo interdisciplinar de pesquisadores, sob a coordenação do Ipam e com a colaboração da Amaggi, cuja Fazenda Tanguro, localizada em Querência (MT), serve como centro de experiências do projeto.

Foto: reprodução

TCE-AM recebe certificado por participação em projetos de reflorestamento

O Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) recebeu certificação do programa internacional Printreleaf pela participação em projetos de reflorestamento. O certificado, vitalício, garante que o número de árvores reflorestadas equivalem ao número de papel utilizado pelo Tribunal.

A secretária-geral de Administração do TCE-AM, Virna Pereira, explicou que o Tribunal vem trabalhando para reduzir o impacto ambiental. “Nós implantamos o sistema SEI para reduzir o número de papel usado em processos, mas procuramos, também, uma instituição que fosse referência para nos ajudar a minimizar ainda mais o dano causado pelo uso de papel”, esclareceu a secretária.

A Printreleaf é uma plataforma desenvolvida nos Estados Unidos e associada a projetos de reflorestamento em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Uma vez que uma empresa ou instituição se inscreve na plataforma, ela calcula a quantidade de papel gasto e o equivalente em árvores cortadas para produzir aquele papel. Assim, os clientes podem selecionar onde reflorestam seu consumo por meio da rede de Projetos de Reflorestamento Global PrintReleaf Certified ™.

Ao falar da certificação, a conselheira-presidente do TCE, Yara Lins dos Santos, ressaltou a importância de participar do projeto. “O Tribunal é reconhecido nacional e internacionalmente como um Tribunal Verde, portanto é importante darmos o exemplo. A Constituição garante que um meio ambiente equilibrado é direito de todos e é dever também do poder público preservá-lo”, comentou.

O software da Printreleaf, que funciona de maneira automatizada, tem parceria com projetos de reflorestamento no Brasil, México, Estados Unidos, República Dominicana, Índia, Irlanda e Madagascar, ajudando a gerar empregos e movimentar a economia nesses locais.

Foto: TCE/Ascom