Seis ações para reduzir as incertezas na era pós covid-19

Por Rodrigo Castro*

Com a expectativa de início da retomada à nova normalidade, pós pandemia da covid-19 no Brasil, é hora das empresas se estruturarem para reduzir os impactos desta freada brusca que o mundo e os negócios sofreram. É certo que esta crise não passará como num passe de mágica.

Reflexos serão sentidos por muitos meses, ou melhor, anos. Alguns deles, previsíveis e cujos impactos podem ser minimizados ou tratados. Outros, imprevisíveis, o que reforça ainda mais a necessidade da estruturação de mecanismos de gestão de crises e riscos continuamente. Analisando este cenário, listei seis ações para reduzir as incertezas nesta era pós-Covid.

1. Reavalie os riscos de serviços e fornecedores essenciais: após a crise, seus fornecedores estarão preparados para continuar operando com você? Muitos parceiros enfrentaram problemas severos de caixa, liquidez, ruptura de fornecimento de insumos e reestruturação do modelo de trabalho, que podem impactar o seu negócio. As obrigações trabalhistas foram cumpridas? Os tributos e encargos foram pagos? A equipe em trabalho remoto dos seus parceiros está lidando com as suas informações de forma segura? O seu parceiro tem caixa para manter a empresa operando? Essas e outras dúvidas podem ser respondidas por meio de uma análise de riscos de fornecedores, que deverá ser feito periodicamente para os parceiros mais críticos.

2. Tenha estruturas de trabalho flexíveis: com a redução drástica das operações e queda de receita, muitas empresas precisaram recorrer aos socorros governamentais para redução de folha de pagamento e horas de trabalho para readequar o tamanho da empresa à situação atual. Se antes o uso intensivo de capital humano compensava investimentos em tecnologia e investimentos em produtividade, agora o cenário impôs rapidamente outra realidade.

Neste sentido, executivos estão repensando se é necessário manter estruturas internas inflexíveis para operações que poderiam ser moldadas de acordo com a necessidade do negócio. E, geralmente, essas áreas são as de suporte, as quais recebem pouco investimento para melhorias e aumento da produtividade, o que poderia ser terceirizado ajustando as operações e otimizando sua eficiência para amortecer as variações do mercado. Uma alternativa rápida é avaliar o potencial de terceirização de áreas para subsidiar a tomada de decisão.

3. Automatize e digitalize a sua operação: as grandes empresas possuem lajes imensas, recheadas de pessoas em frente a seus computadores. Você já parou para pensar o que todas estão fazendo? Em grande parte, são trabalhos repetitivos e automáticos. Basta passar pelas telas para notar ERPs abertos para preenchimento de campos, coleta de dados para alimentar planilhas em Excel, dados de documentos físicos sendo digitados em sistema e outras atividades sem qualquer geração de valor para a organização e para o colaborador.

Todos esses trabalhos repetitivos podem ser substituídos por tecnologias baratas e eficientes, trazendo um potencial de automação de processos ou áreas, que podem suportar na tomada rápida de decisão. Estes assuntos ainda estão circunscritos à área de TI, mas no cenário atual, este tema passa a ser estratégico.

4. Estruture suas ações de gestão de crises: alguns executivos desengavetaram seus manuais de gestão de crises e planos de continuidade de negócios. Porém, muitos deles não tinham estes processos estruturados nas empresas. A fricção no processo foi grande. Muitas reuniões, busca pelos responsáveis para a tomada das decisões, contingências não programadas, recursos indisponíveis e outros problemas. A crise mostrou que os planos de recuperação e continuidade não são só teoria. Devem ser feitos e revisitados periodicamente. Isto garante que a empresa esteja preparada para os imprevistos, independentemente de quais sejam.

5. Reforce a segurança de informação: o ambiente controlado dos escritórios, com infraestrutura e tecnologia dedicada para manter a segurança da informação da empresa ainda é suscetível a fragilidades, que expõem os dados das organizações. Imagine quando há ruptura deste controle e os colaboradores passam a trabalhar de forma pulverizada, acessando os dados da empresa por redes domésticas, em computadores pessoais e em ambientes compartilhados por outros familiares? E os dados pessoais coletados pela empresa sem o devido tratamento? Isto abre espaço para mais vulnerabilidades que podem levar, no extremo caso, por exemplo, à interrupção de serviços por ataques hackers.

As empresas foram forçadas a aumentar seu nível de maturidade em segurança de informação e a vigilância deve ser constante, seja pela gestão das vulnerabilidades que surgem a cada dia nos sistemas e softwares utilizados, seja pelo monitoramento 24/7 de incidentes, no qual a velocidade da reação faz toda a diferença da minimização dos impactos.

6. Repense as áreas de auditoria, compliance e controles internos: em momentos de crise, a tendência dos executivos é primeiramente desmobilizar áreas que não geram receita ou não estão ligadas à atividade primária da organização. Neste cenário, as estruturas de gestão de riscos, auditoria e compliance sofrem mais rapidamente, comprometendo os controles dos processos que evitam riscos de perdas, desvios, fraudes, erros, multas ou atos ilícitos.

Em um cenário de pressão situacional, colaboradores podem ter salários reduzidos, descontentamento com as novas políticas de trabalho e flexibilização de controles por conta do home office. A falta de monitoramento pode acarretar problemas futuros para a organização. Uma opção é a terceirização de atividades da segunda e terceira linha de defesa, assim como é possível lançar mão de tecnologias como a auditoria contínua com base em dados, a mineração contínua de processos para prevenção e detecção constante de erros e desvios e outros mecanismos que barateiam e são mais eficazes na manutenção dos controles operacionais.

A gestão de riscos na retomada deve ser tratada com a seriedade que a realidade atual impõe. As organizações não voltarão a ser como eram. O novo normal poderá trazer muitas oportunidades que, se bem exploradas, poderão levar as empresas a patamares mais elevados de eficiência e produtividade, sem abrir mão de controles e monitoramento dos riscos.

*Rodrigo Castro é diretor de riscos e performance na ICTS Protiviti, empresa especializada em soluções para gestão de riscos, compliance, auditoria interna, investigação, proteção e privacidade de dados.

Foto: Divulgação

Chega de pseudociência

Por Vivaldo José Breternitz*

Nesses tempos de pandemia, aumentou exponencialmente o número de curiosos, políticos, gurus e terapeutas de diversas linhas alternativas, nem sempre honestos, que tem proposto a adoção de práticas e remédios para combater a covid-19. A situação chegou a tal ponto que Donald Trump sugeriu a injeção de desinfetantes, e o que é pior, alguns seguiram a recomendação e morreram.

Essa explosão de desinformação, que a Organização Mundial da Saúde chama de “infodemia”, chamou a atenção de cientistas sérios que passaram a combatê-la, como o professor Timothy Allen Caulfield, da Universidade de Alberta, no Canadá, que é especialista em questões legais, políticas e éticas ligadas à pesquisa médica.

Para Caulfield, devemos deixar de tolerar a pseudociência, especialmente em universidades e instituições de saúde famosas, como a Cleveland Clinic, de Ohio, que legitimam práticas não científicas como o reiki, que pretende “balancear a energia vital que flui através de todas as coisas vivas”.

Também é necessário combater propostas de quiropatas, naturopatas, herbalistas, consteladores e “terapeutas holísticos”, versões modernosas das benzedeiras do tempo de nossas avós, que estão oferecendo produtos e serviços destinados a combater a pandemia – precisamos reconhecer que ajustamentos da espinha dorsal, alinhamentos dos chakras, injeções de vitaminas e práticas similares são absolutamente inúteis para esse fim.

Talvez essas coisas possam funcionar como placebos e aliviar a tensão dos doentes, mas em termos práticos atrapalham o desenvolvimento da pesquisa científica séria e confundem os leigos, ao misturar conceitos díspares como física quântica, células tronco e outros.

Em tempos onde há pessoas que são contra vacinas ou negam que o clima está mudando, pode parecer difícil combater a desinformação gerada pelos algoritmos que governam as redes sociais e por celebridades de diversas áreas não ligadas à ciência e que acabam divulgando pseudociência.

Esperemos que um dos legados da pandemia seja o reconhecimento de que tolerar a pseudociência pode fazer muito mal a todos.

* Vivaldo José Breternitz é doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, professor de Planejamento Estratégico e Sistemas Integrados de Gestão da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Coronavírus: gravidez na pandemia

Por Waldemar Carvalho*

Com o surto do novo coronavírus, mais conhecido como covid-19, os números de casos vêm crescendo exponencialmente. O que torna a compreensão dos modos de infecção e prevenção um desafio e aprendizado diário. São inúmeras as dúvidas que surgem ao decorrer dos dias e, muitas vezes, o clima que prevalece é de medo, principalmente para aquelas que estão gerando vidas: as gestantes.

Para a maioria delas, principalmente as mamães de primeira viagem, o nascimento do filho é um dos episódios mais emocionantes de suas vidas. Mas, o que fazer quando esse momento é acompanhado por uma pandemia mundial de um vírus altamente contagioso do qual ainda estamos em processo de estudo?

Diante de tal situação, é normal que muitas gestantes se sintam inseguras ou até com medo dos próximos passos. Muitas me perguntam qual a influência do Covid-19 durante a gravidez e até mesmo depois dela, desde o pós-parto até o estabelecimento de laços, como começar a amamentar.

A resposta é simples e um tanto tranquilizadora. Por enquanto, pouco se sabe acerca do impacto dessa infecção, mas há relatos de mães testadas positivo que geraram seus bebês livres do vírus. Existem estudos em andamento que analisam o impacto direto do coronavírus na gravidez, mas não há precisão de dados que comprovam se a covid-19 dificulta ou não a gravidez, bem como se interfere no desenvolvimento e saúde do feto ou após nascimento do bebê. Ou seja, ainda não há evidências que as gestantes correm mais riscos de contrair o vírus do que a população em geral.

Posso apontar um exemplo sobre isso. Uma pesquisa realizada durante os dias 13 a 25 de março, pelo Centro de Medicina da Universidade de Columbia, em Nova York, EUA, revelou que, entre 43 grávidas que participaram do estudo, 37 (86%) possuíam sintomas leves, quatro (9,3) sintomas graves e duas (4,7) apresentaram quadro crítico. Também não foram detectados casos confirmados em neonatos após teste inicial no primeiro dia de vida.

Entretanto, todo cuidado é pouco. Costumo dizer que gestantes e até as purpéras – mulheres que deram a luz recentemente – fazem parte de “grupos de riscos”, até porque a condição da gravidez – e até mesmo depois do parto – exige uma série de cuidados em relação a não-gestante, por exemplo, que, quando não seguidos, pode acarretar diretamente na imunidade da mulher, podendo gerar problemas de saúde. E com o coronavírus a situação não é diferente: é preciso redobrar esses cuidados comuns da gravidez e seguir rigorosamente as medidas de segurança preconizadas pelo Ministério da Saúde em relação à pandemia.

Os órgãos institucionais de reprodução humana e obstetrícia reforçam as medidas básicas de prevenção divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A principal orientação é manter o isolamento social, saindo apenas em casos de urgências. Atualmente, a gestante pode recorrer a recursos tecnológicos para manter contato com o seu obstetra, inclusive para consultas, como a videoconferência. Nos casos de necessidade de exames de rotina, há laboratórios que disponibilizam o serviço em home care. Além disso, se houver a necessidade de exames como ultrassonografia, por exemplo, pode ser alinhado com o obstetra a possibilidade de postergar ou as orientações necessárias para ir até uma clínica realiza-lo. Minha orientação é analisar caso a caso, sempre em comum acordo entre médico e
paciente.

 Além disso, redobrar as medidas de precaução que são divulgadas pela mídia. É extremamente importante manter a higienização das mãos, preferencialmente com água e sabão, e se achar necessário, usar o álcool em gel. Em casos de contatos externos, também é importante o uso da máscara, tanto pela mãe quanto para outros familiares, para proteção do bebê.

Para o período de amamentação, as mães também podem ficar tranquilas. Podem amamentar normalmente, pois também não comprovação de que esse vírus pode ser transmitido pelo leite materno. De qualquer modo, é preciso cumprir as regras de higiene e entender que nesse momento o isolamento social é fundamental.

Mesmo para as gestantes que estão na reta final, não é preciso ter ansiedade ou mudar os planos do parto. O importante ainda é que o bebê nasça no seu tempo e que os pais entendem que esse ritual do nascimento, que é muito social, nesse momento precisará ser mais íntimo para preservar a saúde da família, mas que logo todos poderão celebrar essa nova vida.

*Waldemar Carvalho é ginecologista e obstetra da Clínica Tempo Fértil, especializado em reprodução humana no Portland Fertility Center de Londres, Inglaterra É referência em reprodução humana assistida, preservação da fertilidade feminina e planejamento reprodutivo.

Foto: reprodução

Como ficam as contribuições do empregado ao INSS durante a quarentena do covid-19?

Por Vinícius Pacheco Fluminhan

Com a entrada em vigor da Medida Provisória 936/20, muitos empregados terão suas atividades profissionais diminuídas ou suspensas por determinação de seus empregadores. Embora o momento seja de revisão do orçamento doméstico e diminuição de gastos, existe uma questão previdenciária que merece cuidado. Esses trabalhadores não terão o INSS recolhido pelas empresas ou o terão apenas parcialmente. Será que todos estão cientes disso?

Os empregados das empresas que optaram (ou vão optar) pela suspensão dos contratos de trabalho receberão do Governo Federal, o denominado Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda (BEPER), que muito se assemelha ao conhecido Seguro-Desemprego. A suspensão poderá durar até 60 dias e neste período não haverá pagamento de salários. Portanto, não haverá recolhimento ao INSS. Mesmo para as empresas de maior porte, que deverão obrigatoriamente pagar aos empregados a ajuda compensatória equivalente a 30% do salário, também não haverá recolhimento sobre tais valores. Em suma, muita gente vai ficar sem contribuição ao INSS por dois meses.

Para os empregados que tiverem acordo de redução da jornada e do salário em 25%, 50% ou 75%, a situação não é muito diferente. Eles receberão o BEPER por até 90 dias e isso pode gerar impacto nos recolhimentos ao INSS se o valor do salário, após o acordo, ficar abaixo do salário mínimo. Mesmo que a empresa pague espontaneamente a ajuda compensatória, sobre tal valor não haverá recolhimento previdenciário. Assim, nesses meses o recolhimento da empresa ao INSS poderá ficar abaixo do piso (salário mínimo).

Daí a pergunta: somente dois ou três meses de INSS fazem muita diferença para o trabalhador? Sim. Esse curto período pode ser o prazo necessário para que se complete a carência para um benefício no futuro. Pode ser essencial para se atingir um percentual maior de aposentadoria quando ela for concedida. E pode também ser motivo de antecipação da aposentadoria quando o trabalhador mais precisar dela. Além disso, quem não comprova o recolhimento mensal pelo menos no piso (salário mínimo) não pode contar esse período para efeito de aposentadoria ou carência para outros benefícios.

Então o que deve fazer o empregado que está (ou estará em breve) com o contrato suspenso? Para ele, o Governo Federal autorizou recolhimentos pessoais ao INSS. Basta preencher a Guia da Previdência Social (GPS), disponível no site www.inss.gov.br, e utilizar o código 1406 para pagar a alíquota de 20%, ou código 1473 para pagar a alíquota reduzida de 11%. A alíquota reduzida só pode ser adotada por aqueles trabalhadores que abriram mão do direito à aposentadoria por tempo de contribuição. No primeiro caso, a base de cálculo é de livre escolha do trabalhador, desde que respeite o piso de R$ 1.045,00 e o teto de R$ 6.101,06. No segundo caso, a base de cálculo é sempre o salário mínimo.

E o que deve fazer o empregado que teve acordo de redução de salário e vai receber menos do que o mínimo (R$ 1.045,00)? Ele deve recolher a diferença para evitar surpresas desagradáveis no futuro. Como o complemento já é uma realidade para o empregado intermitente, que utiliza o código 1872, esse deve ser o caminho para o recolhimento da diferença. Neste caso, atenção! Não se recolhe uma GPS para pagar a diferença ao INSS, mas sim uma DARF, que pode ser obtida facilmente no site da Receita Federal (www.receita.economia.gov.br).

Por fim, um aviso importante. De acordo com a legislação em vigor (Lei 8.212/91 e Lei 8.213/91) não haverá espaço para arrependimento futuro se os trabalhadores com contrato suspenso optarem por não fazer esses recolhimentos agora. Para eles vale a regra que sempre foi aplicada aos segurados facultativos: não existe possibilidade de recolhimento retroativo. Por isso, é sempre bom lembrar o velho ditado: é melhor prevenir do que remediar, especialmente em se tratando de previdência.

Vinícius Pacheco Fluminhan é doutor em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Université Paris-Nanterre e professor de Direito Previdenciário da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas.