Fiocruz, GSK e ViiV Healthcare vão produzir medicamentos para tratamento do HIV em dose única inédita no Brasil

A Farmanguinhos/Fiocruz – Instituto de Tecnologia em Fármacos -, a farmacêutica britânica GSK e a ViiV Healthcare – empresa dedicada exclusivamente a tratamentos para o HIV -, firmam parceria para desenvolvimento e produção de antirretrovirais no Brasil. A cooperação, assinada na última terça-feira (14), denominada Aliança Estratégica de longo prazo, tem como objetivo melhorar a capacidade nacional de produção de medicamentos para o tratamento de pessoas que vivem com HIV.

O projeto prevê a colaboração para fabricação local de uma combinação de Dolutegravir 50 mg e Lamivudina 300 mg em dose única diária. A tecnologia será transferida da ViiV Healthcare – detentora da propriedade intelectual – para Farmanguinhos em fases. A primeira consiste na absorção tecnológica e “know-how” para a fabricação de Dolutegravir 50mg, um dos mais modernos antirretrovirais utilizado no tratamento de HIV no mundo. No Brasil, o medicamento foi introduzido no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2016 e, atualmente, é distribuído a mais de 300 mil pacientes, o que representa cerca de metade das pessoas em tratamento contra o HIV atendidas pelo SUS.

A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade, destaca a importância da cooperação para fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). “Esta cooperação reforça o compromisso da Fiocruz com a saúde pública e a qualidade de vida dos brasileiros. Por meio dessa parceria, iremos modernizar o tratamento de HIV no Brasil com potencial de beneficiar milhares de pacientes com a redução dos comprimidos e dos efeitos adversos. Ao mesmo tempo, daremos impulso à ciência e à produção nacionais, tão importantes para o fortalecimento do nosso Sistema Único de Saúde”, destaca.

A ViiV Healthcare ainda colaborará com Farmanguinhos para desenvolver localmente uma formulação de dose única diária a partir da combinação de Dolutegravir 50mg e Lamivudina 300mg – ainda não disponível no país. É a primeira vez que um tratamento antirretroviral ainda não comercializado no Brasil é objeto de uma aliança estratégica entre uma companhia multinacional e um laboratório público brasileiro.

Para José Carlos Felner, presidente da divisão Farmacêutica da GSK no Brasil, este modelo de aliança estratégica é muito benéfica no sentido de garantir acesso a medicamentos inovadores a pessoas vivendo com HIV/Aids. “Há mais de três décadas, contribuímos para o avanço da ciência no Brasil, por meio de alianças estratégicas com Instituições de Pesquisa e de Produção para transferência de tecnologia de nossos medicamentos e vacinas. Nos últimos 10 anos, junto com a ViiV Healthcare, disponibilizamos medicamentos inovadores para o tratamento do HIV. Esta nova cooperação é mais um passo rumo à garantia do acesso amplo a terapias modernas à populaçãoe ao nosso compromisso de não deixar nenhuma pessoa vivendo com HIV para trás, melhorando cada vez mais a qualidade de vida desta comunidade.

O diretor de Farmanguinhos, Jorge Mendonça, destaca a ampliação da cooperação a fim de favorecer o acesso a tratamentos inovadores. “O objetivo é elaborar um portfólio de antirretrovirais de primeira linha, que sejam de interesse do Ministério da Saúde para que possamos distribuí-los no SUS. Nossa preocupação é com a qualidade de vida das pessoas. Neste sentido, redução de comprimidos significa menos eventos adversos para os pacientes que vivem com HIV/Aids. “, explica Mendonça.

Benefícios da Aliança Estratégica

A cooperação propiciará benefícios para os pacientes, tais como acesso a tratamentos modernos, redução de comprimidos e menos efeitos adversos, o que melhora a adesão. A Aliança Estratégica vai gerar economia aos cofres públicos com redução dos custos de aquisição de medicamentos, o que diminui a dependência do Programa de HIV/Aids por insumos importados, em médio e longo prazo. Outro objetivo é trazer para o Brasil mais conhecimento na fabricação desses produtos, que são estratégicos para o SUS, o que fortalece o Complexo insdustrial da Saúde Brasileira, contribuindo ainda para a geração de emprego e renda no país.

Os parceiros

A cooperação conta com a GSK, empresa global de saúde com foco em ciência e com um propósito especial de ajudar as pessoas a fazer mais, sentir-se melhor e viver mais, por meio de três negócios globais de pesquisa, desenvolvimento e fabricação de medicamentos inovadores, vacinas e produtos de saúde. Há mais de três décadas, a GSK tem colaborado com o governo brasileiro, no Programa Nacional de Imunizações (PNI) e em diversas Alianças Estratégicas, desde Transferências de Tecnologia até colaborações de Pesquisa & Desenvolvimento, com diferentes instituições. Foi a GSK que trouxe para o Brasil, em 1991, o primeiro medicamento antirretroviral do mundo, o AZT, para fornecimento ao Ministério da Saúde.

E a ViiV Healthcare é líder em pesquisa e desenvolvimento de tratamentos para o HIV, criada em 2009, a partir de uma joint venture entre a GSK e a Pfizer, forma uma companhia global dedicada exclusivamente a tratamentos para o HIV. Em 2012, a japonesa Shionogi completou a sociedade.

Pelo Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) é a instituição de pesquisa e desenvolvimento científico vinculada ao Ministério da Saúde. Responsável por produzir e divulgar conhecimentos e tecnologias que visam o fortalecimento e a consolidação dos sistemas de saúde, a Fundação é a principal instituição de pesquisa e promoção da saúde pública da América Latina.

E a Farmanguinhos, uma unidade técnico-científica da Fiocruz, atua de forma multidisciplinar nas áreas de educação, pesquisa, inovação tecnológica e produção de medicamentos. Reconhecida como o maior laboratório farmacêutico oficial vinculado ao Ministério da Saúde, é mais do que uma fábrica, é um instituto de ciência e tecnologia em saúde. Além de pesquisar, desenvolver e produzir medicamentos essenciais para a população brasileira, Farmanguinhos se destaca ainda na luta pela redução de custos desses produtos, permitindo a ampliação ao acesso de mais pessoas aos programas de saúde pública. Para mais informações, acesse o site: http://www.far.fiocruz.br

Foto: Reprodução/Site Fiocruz

Temporada de fogo começa em alta na Amazônia

O período seco na Amazônia – quando, em 2019, foram registradas queimadas de dimensões trágicas – está começando com dados alarmantes. O número de queimadas entre 1 e 21 de junho de 2020 é o maior dos últimos 10 anos nesse período – e ficou 50% acima da média dos 10 anos anteriores (2010 a 2019), que foi de 979.

Nos primeiros 21 dias de junho, foram detectados 1.469 focos de queimadas no bioma Amazônia, 30% a mais que no mesmo período de 2019, quando 1.125 focos foram registrados pelo Inpe. Desses 1.469 focos de queimadas detectados na Amazônia entre 1 e 21 de junho de 2020, 63% ocorreram no Mato Grosso (915).

Esses são os dados mais recentes disponibilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Somados aos dados de desmatamento recente, este aumento no número de focos em um mês que historicamente é mais baixo anuncia o que está por vir.

Desmatamento

Entre 1º de janeiro e 31 de maio de 2020, houve alertas de desmatamento para 2.032 km2 na Amazônia Legal, o maior número registrado para o período desde 2015. E o corte raso na floresta amazônica continua subindo.

A ameaça é que o desmate deste ano supere os 10.129 km2 medidos no ano passado, na maior taxa desde 2008 e mais do que o dobro da taxa medida em 2012.

Se olharmos de agosto de 2019 a maio de 2020 com base nos dados do Deter, do Inpe, o desmatamento foi de 6.504 km2, 78% a mais em comparação ao período anterior (agosto de 2018 a maio de 2019), quando foram desmatados 3.654 km2. Esse período de 10 meses exclui os meses de junho e julho, quando o desmatamento é historicamente mais alto.

Saúde pública

Vistas isoladamente, as queimadas representam graves riscos à saúde da população. Um dos efeitos é o aumento do registro de internações hospitalares por doenças respiratórias. Estudo da Fundação Oswaldo Cruz constatou que o número de crianças internadas dobrou entre maio e junho de 2019 – no início do período das queimadas, numa amostra de 100 municípios da Amazônia Legal. Foram 2,5 mil internações a mais por mês, o que teria custado R$ 1,5 milhão extras ao Sistema Único de Saúde. E não são apenas as crianças que sofrem. “As queimadas na Amazônia representam um grande risco à saúde da população. Os poluentes emitidos por essas queimadas podem ser transportados a grande distância, alcançando cidades distantes dos focos de queimadas”, diz o informe do Observatório de Clima e Saúde, ligado à Fiocruz. 

Foto: Araquém Alcântara/WWF Brasil

Cientistas mapeiam grilagem em florestas públicas na Amazônia

Um novo artigo científico de autores brasileiros, publicado na última segunda-feira (23) na revista “Land Use Policy”, mapeia a grilagem em florestas públicas não-destinadas na Amazônia. Dos 49,8 milhões de hectares de florestas sob responsabilidade estadual e federal, mas ainda não alocados a nenhuma categoria de uso, 11,6 milhões de hectares foram declarados irregularmente como imóveis rurais, de uso particular, no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (CAR). Essa área equivale a dois estados do Rio de Janeiro.

O impacto da grilagem se traduz facilmente em desmatamento. Nessas áreas, os pesquisadores identificaram 2,6 milhões de hectares derrubados até 2018, uma área do tamanho de Sergipe. Tal destruição gerou a emissão de 1,2 bilhão de toneladas de CO2, o principal gás do efeito estufa. Oitenta por cento da área desmatada (2,1 milhões de hectares) apresenta registro no CAR, demonstrando a intenção de uso privado de uma área pública.

Se toda a área registrada até hoje como propriedade privada fosse legalizada, de 2,2 a 5,5 milhões de hectares poderiam ser derrubados nos próximos anos – isso seguindo os limites de desmatamento definidos pelo Código Florestal, quando muitas vezes o desmatamento é maior que o permitido.

Nos últimos anos, a grilagem de florestas não-destinadas aumentou. Em 2019, foi a categoria fundiária onde mais se derrubou floresta na Amazônia, de acordo com dados do sistema de alertas de desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Deter. A tendência se mantém em 2020.

Passo a passo

Para fazer a análise, os pesquisadores primeiro limparam as sobreposições das florestas não-designadas no Cadastro Nacional de Florestas, do Serviço Florestal Brasileiro, que conta com 62 milhões de hectares, com outras áreas na base fundiária da Amazônia. Com isso, chegou-se a 49,8 milhões de hectares de florestas públicas, próxima ao tamanho da Espanha, que ainda não foram destinadas para proteção ou uso sustentável de seus recursos naturais, como previsto na Lei de Gestão de Florestas Públicas, de 2006. Deste quinhão, os estados da Amazônia possuem uma área maior (32,7 milhões de ha) do que o governo federal (17,1 milhões de ha).

A grilagem dessas áreas tem como objetivo frequente a especulação fundiária. “Na Amazônia, observamos a seguinte dinâmica: um grileiro entra na área pública e a registra como dele ou no nome de laranjas; depois desmata a área, coloca algumas cabeças de gado para se dizer pecuarista e tenta de todos os jeitos a regularização, ou espera um desavisado comprar a terra. Uma vez vendida, essa terra entra no sistema de produção agropecuária, e o novo dono e seus produtos carregam esse passivo, enquanto o grileiro passa para a próxima área”, explica o pesquisador Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), um dos autores principais do estudo.

O CAR, como registro de regularidade ambiental da propriedade, autodeclarado pelo ocupante, entra nessa equação como uma tentativa de se forjar uma ocupação regular. Por isso, é preciso barrar a validação desses cadastros falsos no sistema. “Esses registros estão na base de dados do governo. Para atuar contra a ilegalidade, é fundamental que o poder público atue para, no mínimo, avaliar a legalidade da ocupação destas áreas, pois isso é roubo do patrimônio público”, diz Moutinho.

A pesquisadora Claudia Azevedo-Ramos, da Universidade Federal do Pará (UFPA), que liderou o estudo, destaca o papel dessas florestas. “É preciso destinar essas florestas para fins de proteção e uso sustentável. Preservar esses ecossistemas significa respeitar os direitos das populações tradicionais e indígenas, que muitas vezes são expulsos pelos grileiros, além de manter a chuva e o clima estáveis, fundamentais para a produção agrícola na Amazônia.”

A despeito de a legislação brasileira definir categorias potenciais de destinação para as florestas públicas, e resguardar essas áreas como domínio público, os autores destacam que, desde 2019, todos os programas de designação dessas áreas foram desmontadas pelos governos federal e estaduais. “Estas florestas pertencem aos brasileiros. Aos governos, cabe protegê-las e garantir que não sejam entregues à especulação e à usurpação de seus recursos naturais. Preservar as florestas públicas é garantir que a Amazônia mantenha suas funções climáticas e socioambientais, com benefícios para todo o planeta”, explica Azevedo-Ramos.

Foto: Ibama/arquivo

Os desafios da enfermagem no tratamento de pacientes graves com covid-19

As medidas adotadas pelas equipes de enfermagem, com o apoio de demais profissionais e gestores da saúde, têm ajudado a salvar vidas, especialmente nos serviços de Urgência e Emergência do Amazonas. Além do desafio de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus, há também o da capacitação e atualização periódica para a melhoria da assistência, algo que ocorre de forma paralela às práticas de segurança ao paciente e ao trabalhador, explica a presidente da Associação Segeam (Sustentabilidade, Enfermagem e Gestão em Saúde), enfermeira Karina Barros.

O aperfeiçoamento dos protocolos de segurança, ocorrido desde o início da pandemia no Brasil, garantiu que grande parte dos profissionais não fosse contaminada durante a atuação em saúde.

No caso dos enfermeiros emergencistas, a realização ou suporte às entubações, reanimações de pacientes portadores de covid-19 e o frequente contato com secreções e gotículas de saliva (aerossol), além da prática de aspirar as vias respiratórias, colocam os profissionais de frente com o vírus, diariamente. Por isso, a insistência no uso contínuo de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) e álcool em gel 70% antisséptico durante os plantões. 

“O face shield (viseira), por exemplo, impede que na hora da reanimação, na qual parte dos pacientes está em ventilação mecânica, a chuva de aerossol chegue até o profissional de saúde. Associado às máscaras, a proteção é ainda maior”, destaca.

Modalidades e classificação de risco

Entre as modalidades de pacientes recebidos nos serviços de Urgência e Emergência, estão: os clínicos, os traumáticos e os com covid-19. Há casos em que pacientes com covid se enquadram nas três categorias. Outra medida adotada com a chegada da covid-19, foi a adaptação do Protocolo de Manchester, conhecido popularmente como Classificação de Risco.

Uma derivação desse protocolo, que usa as cores para determinar a gravidade de cada paciente, e assim, a prioridade no atendimento, gerou as chamadas Salas Rosas, que contém sua própria subclassificação, conforme o grau de gravidade da Síndrome Respiratória Aguda (SRA). O tema foi abordado durante a Primeira Semana da Enfermagem Segeam, que contou com a participação de profissionais de diversas áreas de atuação.

Nota Técnica

Em março deste ano, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) emitiu mais uma nota técnica, com recomendações aos profissionais da enfermagem, durante a pandemia do novo Coronavírus, que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII), em janeiro. A nota também reforça medidas educativas que visam minimizar os efeito da pandemia.

Na nota, a entidade destaca a relevância da Enfermagem na detecção e avaliação dos casos suspeitos, não apenas em razão de sua capacidade técnica, mas também por constituírem-se no maior número de profissionais da área da saúde, e serem a única categoria profissional que está nas 24 horas junto ao paciente.

E recomenda realizar a higiene das mãos antes e depois do contato com pacientes ou material suspeito e antes de colocar e remover os EPIs; evitar exposições desnecessárias entre pacientes, profissionais e visitantes dos serviços de saúde;  estimular a adesão e adotar as demais medidas de controle de infecção institucionais e dos órgãos governamentais (Ministério da Saúde, Anvisa e Secretarias de Saúde); apoiar e orientar medidas de prevenção e controle para o novo coronavírus (covid-19); reforçar a importância da comunicação e notificação imediata de casos suspeitos para infecção humana pelo novo covid); manter-se atualizado a respeito dos níveis de alerta para intervir no controle e prevenção deste agravo; estimular a equipe de Enfermagem a manter-se atualizada sobre o cenário global e nacional da infecção humana pelo novo Coronavírus (covid-19), por meio de fontes de informação oficiais; orientar e apoiar o uso, remoção e descarte de Equipamentos de Proteção Individual para os profissionais da equipe de enfermagem de acordo com o protocolo de manejo clínico para a infecção humana pelo novo Coronavírus (covid-19), conforme recomendação da Anvisa; realizar a limpeza e desinfecção de objetos e superfícies tocados com frequência pelos pacientes e equipes assistenciais, entre outros.

Confira a íntegra da nota: http://www.cofen.gov.br/cofen-publica-nota-de-esclarecimento-sobre-o-coronavirus-covid-19_77835.html

Foto: divulgação

Área desmatada na Amazônia a ser queimada em 2020 pode superar os 4,5 mil km²

Uma área desmatada de pelo menos 4.500 quilômetros quadrados na Amazônia, equivalente a três vezes o município de São Paulo, está pronta para queimar. Resultado da soma do que foi derrubado no ano passado e nos primeiros quatro meses desse ano, e ainda não queimado, essa vegetação no chão pode virar fumaça com a estação seca que começa em junho em mais uma temporada de fogo intensa como observamos em 2019. Se isso ocorrer, o número de internações por problemas respiratórios pode aumentar expressivamente, pressionando ainda mais o sistema de saúde da região, já duramente afetado pela covid-19.

O alerta foi dado nesta segunda-feira (8/6) em uma nota técnica divulgada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Pelos cálculos dos cientistas, se o ritmo acelerado de desmatamento continuar nos próximos meses, quase 9 mil kmpoderão virar cinzas, já que a época mais intensa de derrubada e queima se inicia agora, com a chegada do período seco na região.

“Coibir as queimadas e o desmatamento neste ano, além de uma ação de proteção ambiental, é também uma medida de saúde”, afirma o autor principal da nota, o pesquisador Paulo Moutinho, do Ipam. A preocupação reflete os dados do ano passado, quando os municípios que mais queimaram na Amazônia viram o ar ficar 53% mais poluído, em média, em relação a 2018. Moutinho ainda pondera que “uma não ação dos poderes públicos na prevenção do desmatamento e das queimadas poderá representar perdas de vidas humanas para além das previstas com a pandemia”. “Precaução é a palavra chave agora”, conclui.

Normalmente, anos assim cheios de fumaça levam centenas de pessoas para postos de saúde e hospitais da região. Se isso acontecer em 2020, elas encontrarão leitos ocupados por infectados pelo coronavírus.

“Durante a temporada de fogo, extensas áreas da Amazônia tem qualidade do ar pior que no centro da cidade de São Paulo devido às queimadas. Isso tem forte efeito na saúde, especialmente em crianças e idosos, que são as populações mais vulneráveis”, explicou o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo, que colaborou com o trabalho. “Como a poluição das queimadas viaja por milhares de quilômetros, comunidades isoladas de índios respiram esta atmosfera insalubre, que é muito acima dos padrões de qualidade do ar da Organização Mundial da Saúde.”

Quatro estados concentram 88% da área desmatada e não queimada: Pará (com 42%) dos 4,5 mil km², Mato Grosso (23%), Rondônia (13%) e Amazonas (10%). Olhando com mais cuidado, onze regiões são especialmente preocupantes. Elas devem ser consideradas como prioritárias para ações de comando e controle, especialmente aquelas planejadas pelo governo federal, assim como para o planejamento de atendimento à saúde pelos governos estaduais.

O fogo é o próximo passo no processo de conversão de uma floresta em outro uso da terra, como pasto, explica a diretora de Ciência do IPAM, Ane Alencar, que também assina a nota técnica. “Por isso, quando temos uma taxa de desmatamento alta na Amazônia, a relação com o aumento de focos de calor é direta. Foi o que vimos acontecer em 2019 e, infelizmente, se nada for feito, é o que deveremos ver em 2020, já que a derrubada continua num ritmo elevado.”

Foto: divulgação

Embrapa e A.B.E.L.H.A. oferecem curso on-line de criação de abelhas sem ferrão

Está no ar o primeiro curso on-line e gratuito sobre criação de abelhas sem ferrão, fruto da colaboração entre a Embrapa Meio Ambiente e a Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A.).

O Curso de Meliponicultura Embrapa/A.B.E.L.H.A. está disponível na plataforma http://www.embrapa.br/e-campo e no canal da Embrapa Meio Ambiente no YouTube, com linguagem acessível, rico em imagens e demonstrações práticas. As videoaulas vêm atender ao interesse crescente pela criação de abelhas sociais nativas do Brasil. Elas são dóceis – pois não têm ferrão – e podem ser criadas como hobby, mesmo em casa e centros urbanos, ou para fins comerciais, já que produzem méis especiais – alguns com grande valor de mercado.

O curso é idealizado e ministrado por Cristiano Menezes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente na área de abelhas e polinização, e também membro do comitê científico da A.B.E.L.H.A.. O principal objetivo de suas pesquisas é desenvolver tecnologias para tornar a atividade de criação de abelhas sem ferrão economicamente viável.

“Além de capacitar as pessoas para iniciar na meliponicultura (a criação de abelhas sem ferrão), também queremos aprimorar as técnicas de quem já é criador, mas o faz de forma rústica, para que possa melhorar seu desempenho produtivo”, conta Menezes.

Nos moldes de ensino à distância, a capacitação está dividida em quatro módulos que, no total, somam carga horária de 8 horas. É um curso completo sobre o assunto, com informações sobre a biologia das abelhas sem ferrão e técnicas de manejo. Após assistir às quatro videoaulas, as pessoas estarão preparadas para iniciar sua própria criação e produzir mel.

Abelhas para todo lado

“O Brasil vive um período especial em relação às abelhas, com muito interesse seja do público leigo, seja da Academia. Agora, com o curso de meliponicultura, a ideia é que mais pessoas tenham contato com nossas abelhas. Assim, ajudamos a conservá-las”, explica Ana Assad, diretora-executiva da A.B.E.L.H.A..

O curso conta ainda com o apoio de um importante parceiro do setor produtivo, a Loja das Abelhas , o maior fornecedor de produtos para criação de abelhas sem ferrão do Brasil, e da Kombee, projeto que usa as espécies nativas para ações de educação ambiental.

Serviço

Curso de Meliponicultura Embrapa/A.B.E.L.H.A.

As inscrições são permanentes e, após a sua efetivação, o participante tem sete dias para realizar o curso. Os quatro módulos juntos somam carga horária de 8 horas.

Módulo I: Quem são as abelhas sem ferrão?

Apresenta a diversidade de abelhas presentes no Brasil e as principais características que diferem as abelhas sem ferrão das demais.

Módulo II: Biologia geral das abelhas sem ferrão

Demonstra a biologia geral das abelhas sem ferrão e como suas colônias são organizadas.

Módulo III: Por que criar abelhas sem ferrão?

Mostra caminhos que o meliponicultor pode seguir com a sua atividade.

Módulo IV: Técnicas de manejo de abelhas sem ferrão

Aprendizagem sobre como criar as abelhas sem ferrão e manejá-las de forma eficiente.

Foto: Reprodução

Chega de pseudociência

Por Vivaldo José Breternitz*

Nesses tempos de pandemia, aumentou exponencialmente o número de curiosos, políticos, gurus e terapeutas de diversas linhas alternativas, nem sempre honestos, que tem proposto a adoção de práticas e remédios para combater a covid-19. A situação chegou a tal ponto que Donald Trump sugeriu a injeção de desinfetantes, e o que é pior, alguns seguiram a recomendação e morreram.

Essa explosão de desinformação, que a Organização Mundial da Saúde chama de “infodemia”, chamou a atenção de cientistas sérios que passaram a combatê-la, como o professor Timothy Allen Caulfield, da Universidade de Alberta, no Canadá, que é especialista em questões legais, políticas e éticas ligadas à pesquisa médica.

Para Caulfield, devemos deixar de tolerar a pseudociência, especialmente em universidades e instituições de saúde famosas, como a Cleveland Clinic, de Ohio, que legitimam práticas não científicas como o reiki, que pretende “balancear a energia vital que flui através de todas as coisas vivas”.

Também é necessário combater propostas de quiropatas, naturopatas, herbalistas, consteladores e “terapeutas holísticos”, versões modernosas das benzedeiras do tempo de nossas avós, que estão oferecendo produtos e serviços destinados a combater a pandemia – precisamos reconhecer que ajustamentos da espinha dorsal, alinhamentos dos chakras, injeções de vitaminas e práticas similares são absolutamente inúteis para esse fim.

Talvez essas coisas possam funcionar como placebos e aliviar a tensão dos doentes, mas em termos práticos atrapalham o desenvolvimento da pesquisa científica séria e confundem os leigos, ao misturar conceitos díspares como física quântica, células tronco e outros.

Em tempos onde há pessoas que são contra vacinas ou negam que o clima está mudando, pode parecer difícil combater a desinformação gerada pelos algoritmos que governam as redes sociais e por celebridades de diversas áreas não ligadas à ciência e que acabam divulgando pseudociência.

Esperemos que um dos legados da pandemia seja o reconhecimento de que tolerar a pseudociência pode fazer muito mal a todos.

* Vivaldo José Breternitz é doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, professor de Planejamento Estratégico e Sistemas Integrados de Gestão da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Novo antigripal considera diferenças regionais definidas com base em pesquisas

A campanha de lançamento do antigripal da Genomma Lab, Next, foi definida a partir de um estudo quantitativo de comportamento, crenças e hábitos, realizado pela IQVIA, para entender de que forma os consumidores lidam com a gripe em cada região do país. A maioria das pessoas entrevistadas, por exemplo, afirmou utilizar-se de outros métodos para o alívio dos sintomas, além da ingestão de um medicamento antigripal.

A empresa também encomendou uma pesquisa para o Climatempo, a fim de compreender o comportamento dos quadros virais em determinados meses do ano. Para isso, foram levantados elementos climatológicos como temperatura, precipitação, vento, umidade e pressão do ar, bem como suas variações rítmicas e sazonais, indicando como isso pode interferir no aumento da propagação do vírus de gripes, resfriados e de problemas respiratórios. Nesse estudo, entendeu-se que, em muitas regiões, a gripe está conectada a variação de temperatura mais do que com o inverno, as massas polares e o clima seco, em certas épocas, propiciam maior incidência de sintomas em cada região.

Já a pesquisa “U&A (Usage and Attitudes) Gripe e Resfriado”, conduzida pela IQVIA, utilizou uma amostra total de 783 pessoas que ingeriram medicamento para tratar os sintomas de gripe/resfriado nos últimos 12 meses, entre homens e mulheres de 18 a 64 anos, classes ABC, moradores das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Em um quadro geral, a pesquisa demonstrou que a ocorrência de gripe e resfriados é relatada, em média, três vezes por ano e que 75% desses entrevistados, responderam que tomam muita água quando estão gripados, 60% relatam que costumam beber muito chá, 47% utilizam spray nasal e pastilhas para a garganta, 39% tomam mel, 33% ficam deitados e em repouso e 23% utilizam própolis. Importante reiterar que são hábitos sempre atrelados ao uso de algum medicamento. Na região Norte, 74% da população aumenta a ingestão de água e 47% revela tomar chás para ajudar a aplacar os sintomas. O comprimido é a melhor forma de medicação para 83% dos entrevistados. Em todas as regiões brasileiras, a maioria dos entrevistados se automedica, e caso o remédio não faça efeito, eles procuram por um médico.

Next é uma marca da Genomma Global e teve um lançado diferenciado, no Brasil, no dia 15 de abril, com exibições de uma versão de campanha nacional e dezesseis versões regionais, para cada uma das cidades listadas: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Santos, São José dos Campos, Uberlândia, Salvador, Recife, João Pessoa, Teresina, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Belém, Manaus, Goiânia e Brasília. Cada um dos filmes de 30” regionais conta com apresentadores dos telejornais locais, que apontam as previsões do tempo e lembram de algumas ações e cuidados combinados para o combate à gripe.

Foto: divulgação

Hospital Sírio-Libanês e Aché iniciam terceiro protocolo de pesquisa da Coalizão Covid Brasil

O Hospital Sírio-Libanês, por meio da Coalizão Covid Brasil e em parceria com o Aché Laboratórios, iniciará protocolo de pesquisa para avaliar o impacto do medicamento dexametasona em pacientes graves em ventilação mecânica nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Serão inclusos nessa pesquisa apenas os pacientes que apresentarem síndrome do desconforto respiratório agudo por covid-19.

Os pacientes que participarem da pesquisa vão receber o medicamento dexametasona, que faz parte de uma classe de drogas chamada corticoide. Os mesmos demonstraram anteriormente ajudar a reduzir a duração do uso de ventilação mecânica em pacientes com síndrome de desconforto respiratório agudo. “A avaliação agora é entender como esse medicamento pode ajudar pacientes com essa síndrome provocada pela covid-19”, explica Luciano Cesar Azevedo, superintendente de Ensino do Sírio-Libanês Ensino e Pesquisa.

Para este protocolo de pesquisa, além da dexametasona, o Aché destinou um apoio financeiro para realização da logística de entrega do medicamento a todos os centros de pesquisa participantes e contratação dos seguros para os participantes. Este seguro fornece cobertura e tranquilidade para quaisquer necessidades médicas durante e após o término do estudo. Além disso, os centros de pesquisa também receberam equipamentos de proteção individual – EPIs – e álcool em gel. Segundo o Diretor Médico do Aché, Dr. Stevin Zung, “o Aché está participando com diversas formas de auxílio para a população e para a comunidade médica neste momento de pandemia, e o incentivo a pesquisas clínicas como essa é uma das grandes frentes de atuação para tratarmos e controlarmos o quanto antes a covid-19”.

A pesquisa terá dois braços, sendo que um deles usará a dexametasona e o outro, o tratamento padrão da instituição, que não deve incluir o uso de corticoides. Dessa forma, será possível fazer a comparação entre os resultados obtidos pelos dois grupos.

A pesquisa avaliará 300 pacientes e, além do Sírio-Libanês, contará com o apoio dos demais hospitais e entidades que formam a Coalizão CovidBrasil, entre eles Hospital Israelita Albert Einstein, HCor, Hospital Moinhos de Vento, Hospital Alemão Oswaldo Cruz e BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, e também a Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet) e o Ministério da Saúde. Os primeiros resultados devem sair em dois meses.

Foto: reprodução

Coronavírus e poluição do ar podem ser combinação perigosa

Os dois principais fatores que elevam os riscos de óbito em pacientes infectados pelo novo coronavírus são ter mais de 60 anos e ter o sistema imunológico enfraquecido. A poluição do ar tem influência sobre esse segundo fator. “Quem mora numa área poluída tem os pulmões comprometidos da mesma forma que alguém que fuma. Isso também torna a pessoa mais suscetível ao coronavírus”, adverte o epidemiologista Kofi Amegah, especialista em poluição atmosférica da Universidade de Cape Coast, em Gana.

A poluição do ar, que provoca mais de 7 milhões de mortes por ano, pode tornar a covid-19 mais mortal por piorar doenças crônicas que deixam os pacientes fracos diante de uma infecção por Sars-Cov-2. A Aliança Europeia de Saúde Pública afirmou que a poluição do ar provavelmente reduz as chances de sobrevivência de uma pessoa infectada.

Pesquisas sobre surtos anteriores sugerem que o ar poluído torna os vírus mais perigosos e faz com que eles se espalhem mais. Um estudo realizado com as vítimas do Sars-Cov-1, o coronavírus que causou um surto em 2003, revelou que os pacientes tinham duas vezes mais riscos de morrer em regiões onde os níveis de poluição do ar eram mais altos. Mesmo em regiões com poluição moderada, o risco ainda era 84% maior.

Se existir uma dinâmica semelhante para a covid-19, isso poderá aumentar a pressão em UTIs de hospitais de grandes cidades em todo o mundo. Também poderia significar mais riscos para as populações mais pobres, que muitas vezes queimam madeira, esterco, querosene ou carvão em ambientes fechados para cozinhar e aquecer suas casas.

Inimigo silencioso

Na cidade chinesa de Wuhan e no norte da Itália, locais com altos níveis de poluição e infecção pelo novo coronavírus, dados preliminares sugerem que o chamado material particulado pode ter influenciado na sobrecarga dos sistemas de saúde.

As partículas inaláveis finas (MP2,5), ou seja, aquelas cujo diâmetro aerodinâmico é menor ou igual a 2,5 µm – mais fino que a espessura de um fio de cabelo – podem penetrar profundamente no sistema respiratório e atingir os alvéolos pulmonares, aumentando o risco de uma pessoa desenvolver doenças cardíacas e respiratórias.

A taxa de mortalidade por covid-19 na China foi nove vezes maior para pessoas com doenças cardiovasculares e seis vezes maior para pacientes com diabete, hipertensão e doenças respiratórias do que para pessoas sem problemas de saúde, afirma um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) feito em parceria com a China no mês de fevereiro.

Na Itália, as autoridades de saúde relataram em março que 99% de uma amostra de pacientes que faleceram por covid-19 apresentava uma doença pré-existente, e quase metade das vítimas sofria de três ou mais doenças. Porém, o relatório não apresenta rigor estatístico sobre a população. Entre as doenças mais comuns estavam pressão alta, doenças cardíacas e diabete.

A OMS afirma que a pandemia ainda é muito recente para que se possa estabelecer uma ligação entre a poluição do ar e a mortalidade por Sars-Cov-2, mas isso não deve impedir os países de agir. “Haja ou não essa correlação entre a covid-19 e o ar poluído, precisamos reduzir a poluição do ar”, diz Maria Neira, diretora do Departamento de Saúde Pública, Meio Ambiente e Determinantes Sociais da Saúde da OMS. “Parar de fumar e reduzir os níveis de poluição do ar são recomendações que podemos dar, mesmo sem termos mais evidências da relação entre eles e o novo coronavírus”.

Juntamente com a destruição da camada de ozônio, as partículas finas MP2,5 diminuem a expectativa de vida em quase três anos, segundo um estudo publicado mês passado pela revista Cardiovascular Research, da Universidade de Oxford. No mundo, o número de óbitos devido à poluição do ar é dez vezes maior do que a de todas as formas de violência juntas.

Além disso, cerca de nove em cada dez mortes prematuras causadas pela poluição do ar – incluindo gases tóxicos, como dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre – atingem populações de países emergentes ou subemergentes. Mesmo em cidades ricas da Europa e da América do Norte, minorias e populações marginalizadas tendem a respirar um ar mais poluído.

Na África Subsaariana, as mulheres são as mais expostas a poluentes em ambientes fechados. “O sistema pulmonar dessas mulheres está comprometido”, afirma Amegah, e acrescenta que, se a covid-19 se espalhar pela região, elas estarão muito vulneráveis. “Nós oramos e mantemos os dedos cruzados para não ver os níveis de infecção que estamos vendo em outros países.”

Propagação da doença

Além de enfraquecer o sistema imunológico, os poluentes transportados pelo ar poderiam até mesmo atuar como portadores do novo coronavírus, permitindo que ele sobreviva ligado às partículas poluentes, sugere uma equipe de pesquisadores italianos.

Altas concentrações de material particulado em algumas regiões do norte da Itália poderiam ter “impulsionado” a propagação da pandemia, de acordo com a Sociedade Italiana de Medicina Ambiental num documento publicado e ainda não revisado (preprint). Mas outros cientistas levantam dúvidas sobre isso, apontando que o ser humano é o principal vetor de transmissão e que não há casos relatados de disseminação do novo coronavírus pelo ar.

“É bom reduzir a poluição do ar para melhorar a saúde, ou para ajudar a diminuir o risco de que doenças pré-existentes, como a asma, sejam agravadas, mas não vejo a poluição do ar como uma parte importante da discussão sobre a contenção do vírus”, afirma o cientista Jos Lelieveld, diretor do Instituto Max Planck de Química em Mainz, na Alemanha, e autor de um estudo sobre mortes devido à poluição do ar.

Quarentena reduz poluição em São Paulo

Além disso, à medida que os casos de covid-19 aumentam exponencialmente em todo o mundo, as ações de isolamento para impedir a disseminação do vírus reduzem os níveis de poluição nas cidades. Os bloqueios e as medidas de isolamento fecharam fábricas e diminuíram o tráfego aéreo e nas estradas – o que levou a uma diminuição no uso de combustíveis fósseis.

Imagens de satélite da China e da Itália mostram quedas drásticas na concentração de dióxido de nitrogênio  – um gás tóxico que inflama as vias aéreas – à medida que fábricas foram sendo fechadas e o tráfego de automóveis diminuiu drasticamente.

A redução dos níveis de poluição do ar na China pode ter salvado mais vidas do que seriam perdidas com a covid-19, sugere um estudo ainda não revisado, embora essa comparação não leve em consideração as vidas que teriam sido perdidas caso o novo coronavírus tivesse se espalhado sem controle pelo país.

A diminuição dos níveis de poluição atmosférica vista do espaço não pode ser atribuída apenas aos bloqueios e medidas de isolamento. A poluição do ar é mais alta nos meses mais frios porque as pessoas usam mais os aquecedores e se locomovem de carro com mais frequência, por isso ela tende a cair com o aumento das temperaturas, nesta época do ano, explica Christian Retscher, da Agência Espacial Europeia.

“Certamente vemos um efeito da pandemia na queda dos níveis de dióxido de nitrogênio. É um efeito adicional, pois não sabemos os números exatos”, comenta. Embora as medidas de isolamento tenham ajudado a melhorar a qualidade do ar, não se sabe por quanto tempo os níveis de poluição vão se manter baixos.

“Quando a crise passar, e vemos isso na China, há uma tendência de compensar as semanas e os meses perdidos”, diz Zoltan Massay-Kosubek, especialista em políticas de qualidade do ar e transporte sustentável da Aliança Europeia de Saúde Pública.

No entanto, tudo isso prova que é possível reduzir a poluição do ar, o que
salva vidas, afirma Maria Neira, da OMS. “Agora precisamos manter isso – não o confinamento, mas a redução dos níveis de poluição do ar.”

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